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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

19
Mai09

Escrito numa fita.

Marco

Quando o peso das barbas já lhe curvava a coluna o sábio sentou-se em cima da árvore cinzenta desenhada no chão pelo sol e corou ao perguntar-se a si mesmo - mas afinal o que sei eu? sem ver nenhuma resposta concreta, palpável, a emergir para lhe aliviar aquele desconforto inesperado. Tentou lembrar as intermináveis horas de ensinamentos, livros que todos juntos seriam impossíveis de contar, páginas de eterno conhecimento que se cruzaram fugidias com o seu olhar, tempo que julgou fundamental e agora apenas tempo passado, vida que estava por ser e agora já vivida, memórias que os dias transformavam em nevoeiro espesso, típico das manhãs que acordam mal dispostas. O sábio sabia que tinha sabido, só não sabia o quê.
Quando aquela imagem se tornou demasiado insuportável o aprendiz entendeu que o seu conforto estava agora desconfortável e nesse instante, subiu a ladeira que levava até ao velho carvalho onde estava sentado o seu mestre, derrotado por um peso que o reduzia a escombros, subterrado dentro de um corpo vencido que lhe desobedecia
- tu aqui, a veres no que me tornei...
e silêncio, um silêncio que era uma suave brisa de primavera
- mas afinal o que sei eu?
a pergunta que era apenas sua agora dos dois, a pergunta derradeira, sombria, a deixar-se levar pelo vento, deixando-os ainda mais sós, naquele fim de manhã que parecia não poder nunca transformar-se em futuro...
- mas afinal o que sei eu, eu que a todos chamam de sábio?
- o mestre é sábio não por tudo saber mas sim por tanto ensinar!
e saiu, descendo a colina em direcção ao riacho que corria cristalino, transportando consigo a inabalável força das coisas que têm de ser. Mais tarde, quando passou nesse mesmo local, voltou a avistar o seu mestre, na mesma debaixo do velho carvalho, mas agora menos curvado e olhando o horizonte como se tudo o que visse fosse pouco ao pé de tudo o que podia ainda alcançar. Nesse instante, sorriu para dentro e caminhou até casa.

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