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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

17
Out06

Todas as palavras são poucas.

Marco
Faltam-me as palavras. Nenhum texto deveria começar assim, mas sou honesto, faltam-me as palavras. Eu sei o que quero escrever, até tinha uma ideia de como fazê-lo, mas de repente, nada. Irónico. Tenho um milhão de coisas para dizer, julgo até que poderia escrever um livro, ou vários, podia escrever tudo o que pode ser escrito e descrito, podia tudo e no entanto, não posso nada. Faltam-me as palavras.

Injusto. Provavelmente sim, estarei a ser injusto para com as palavras propriamente ditas ou neste caso escritas. Mas a verdade é que hoje, neste momento, olho-as, penso-as, lembro-as e todas elas me parecem escassas, insuficientes, vazias. Dizem apenas o que têm a dizer e eu tenho tanto mais para transmitir. Precisava de mais. Estou encurralado nesta jaula que sou eu próprio.

Hoje, depois de mais hoje que ainda por cima foi depois de ontem e que por sua vez foi depois de antes de ontem, estou sem palavras. Queria conseguir dizer, ou melhor dizer-te tudo o que me vai na alma, mas as palavras não chegam. São pequenas, são poucas, são só palavras e só isso não chega. Resta-me o consolo de saber que fazes uma ideia de tudo o que te queria dizer, e que hoje, depois de mais hoje, manifestamente não consigo. Faltam-me as palavras.
16
Out06

A vida foi toda esse momento.

Marco
Houve ali um momento que me marcou. A noite já tinha chegado e por sinal, bem escura e estrelada. Mas ao mesmo tempo acolhedora, profunda e mágica. O cenário não poderia ser mais perfeito. Apenas eu, tu e o nosso mundo. Aquele que mais ninguém conhece ou sonha como é. Havia o som ligeiro das ondas do mar, umas atrás das outras, acompanhado de um fino fio de água que provavelmente escorreria numa fonte próxima.

Foi ali, naquela pequena varanda virada para o infinito que sorriste daquela maneira vezes sem conta, numa sucessão de perfeições impossível de esquecer. As mãos que se entrelaçaram, os abraços que se seguiram, as palavras que se disseram e novamente as mãos e novamente os abraços e novamente as palavras. A noite foi toda esse momento. A plenitude foi toda esse momento. A vida foi toda esse momento.

Agora, aqui, neste instante em que escrevo as palavras que me escrevem a mim mesmo, neste instante em que a chuva se chove copiosamente lá fora, caíram-me todas as lágrimas. Talvez fosse esse, o som do fino fio de água que se fez ouvir naquela noite em que a perfeição resolveu tomar-me por completo. O som das lágrimas, caindo, caindo, caindo. Lágrimas de uma felicidade gigantesca. Lágrimas de uma saudade esmagadora.
13
Out06

Espero que sim.

Marco
Nem todas as ausências são iguais. Podem até ter o mesmo nome de baptismo – ausência, mas na realidade, esse é apenas o único ponto que têm em comum. Depois, cada uma actua à sua maneira, fazendo-se sentir mais ou menos consoante o seu peso, a sua dimensão. Se é verdade que em teoria significam apenas um espaço tornado vazio, na prática podem ser muito mais do que isso.

Uma ausência pode encher um quarto, uma sala, uma casa. Pode encher uma rua, uma cidade, um país. Pode encher um mundo inteiro. Como se nada mais existisse. Tudo é ausência. As paisagens, os objectos, as pessoas. As outras pessoas que, estando presentes, são parte da ausência. Tudo é ausência. O respirar. O andar. O ser. O fazer. O acontecer. Tudo é ausência.

O que será então a ausência? Será apenas a não presença e ponto final? Não. Não pode ser apenas isso. É-o com certeza. Mas é mais. É sobretudo o desejo de presença. Só por essa razão a ausência pesa tanto. Talvez a ausência seja irmã siamesa da saudade. Talvez andem sempre juntas, inseparáveis. Talvez seja isso que eu sinto neste momento. E talvez seja por isso que o escrevo. Mas talvez eu te veja e talvez tudo isto passe à história. Espero. Espero. Espero. Espero que sim.
12
Out06

Contas à vida.

Marco
Existir dá um trabalho desgraçado. Começando logo no facto de ser obrigatório existirmos todos os dias. Não é possível existir apenas quando apetece ou nos dias em que essa dita existência vale mesmo a pena. Nada disso. Temos de andar por aqui todos os dias, carregadinhos de nós próprios, quais personagens nessa gigantesca peça de teatro chamada vida.

Depois, tudo o que implica existir. Ter sentimentos, por exemplo. Talvez uma das mais pesadas barras que temos de suportar. Gostar, amar, sentir, desejar, é sem dúvida excelente. Mas depois, sofrer, sentir a falta, a saudade, a desilusão. Que difícil. Sim, porque também não é possível existir apenas no bright side of life. Se assim fosse, estou certo de que todos nós estaríamos prontos para existir todos os dias de sorriso nos lábios.

Mas afinal, existir é isto mesmo. É aceitar a vida com tudo o que ela tem de bom e mau. E é saber aprender com o que é mau. E é tentar prolongar o que é bom. E é perceber que afinal, o que parecia mau, nem é tão mau quanto isso. E é perceber que afinal o que é bom, pode ainda ser extraordinário, único, do outro mundo - caramba como eu percebi isso! Existir é isso mesmo e no fim de contas, existir compensa o trabalho desgraçado que dá.
11
Out06

O lugar do vazio.

Marco
... e a história termina. Termina onde começa ou onde deveria ter começado. Não sei se seria um conto, uma novela, um drama ou uma trama. Não sei que personagens, que destino, que aventuras ou desventuras. Não sei nada. Não sei o enredo, não sei o guião, não sei se realidade ou ficção. Tudo é vago, tudo é incerto, tudo é escuro. Talvez este seja aquele momento que acontece antes de tudo começar ou logo depois de tudo acabar. Tudo é nada.

... e a história termina. Com ela vão-se os cenários perfeitos, as cenas impossíveis, os finais tornados felizes. Vai-se a emoção, vai-se a inquietação, vai-se a rendição. Aqui, reina o final antes de qualquer começo. É o espaço vazio em vez de qualquer existência. É o suspenso. É tudo aquilo que não é. Ou porque não chegou a ser. Ou porque deixou de ser depois de ter sido. É o que não é e não sendo, não existe, não foi, não será. Tudo é nada.

... e a história termina. Ficam as dúvidas, as questões, as suposições e as aspirações. Sonham-se as visões, as ilusões, as sensações. Cai o pano sobre o mundo, acendem-se as luzes da realidade, recomeça a vida de todos os dias atrás de todos os dias. E adeus nada. E adeus tudo. E adeus para sempre. E adeus até já. E é mesmo assim. E não há nada a fazer. E a história termina. E outra história começa. E tudo é nada. E nada é tudo.
10
Out06

Uma dor impossível.

Marco
A dor insuportável. A dor sem tamanho, sem explicação, sem piedade. A dor toda ela, repleta de dor, doendo, doendo, doendo. A dor à minha frente, a dor dentro de mim, a dor em cada gesto, a dor absoluta. O doer de uma vida, o doer para toda a vida. A dor da saudade, a dor da revolta, a dor do porquê, a dor do sofrimento. Um doer em estado puro, doendo, doendo, doendo. Um doer de alma, que dói mais fundo, que dói mais. Mais do que tudo.

Como dói ver-te assim. Aí, onde as forças te faltam, onde o mundo se apaga com o passar dos minutos. Como dói poder apenas assistir a aceitar. Como dói toda esta impotência que me acorrenta e atormenta. Como dói esta verdade carregada de mentira. Tu não és esse. Nunca foste. Nunca serás. Esse não és tu. Esse é só um pesadelo de uma noite que teima em não acabar. Como dói esta noite que não acaba! Como dói. Mais do que tudo!

Como dói cada olhar que me diriges. Como dói aquele piscar de olho malandro. Como dói cada ó meus ricos netos! Como dói saber que me vês, que me amas, mesmo sem força para o dizeres. Como dói imaginar-te sozinho nessa noite escura e solitária. Como dói esta incerteza. Como dói essa rendição tão impossível de vencer. Como dói esta dor. Dói demais. Corta a respiração. Como dói Tóino. Ai como dói, dói, dói. E dói! O campeão de todos nós. Certo?
09
Out06

Um anjo na terra.

Marco
Não sei se os anjos andam pela terra. Sinceramente não sei. Também não sei se vestem túnicas brancas, ou se andam em pêlo com dizem por aí. Nem sequer sei se têm asas carregadas de plumas nem tão pouco se conseguem voar. Há quem diga que sim, há quem diga que não. É uma questão que nem me interessa assim tanto, pelo menos no que à sua vertente mais teórica / palpável diz respeito. Deixo isso para os entendidos, vulgo iluminados ou esclarecidos.

O que sei é que ainda existem pessoas cuja missão se cinge ao fazer bem de forma desinteressada. Com paixão. Com amor. Amor a uma causa, tantas causas com cara de pessoas. Vidas que por alguma razão tomaram o difícil rumo do sofrimento e que encontram no seu sorriso, no seu carinho, um pequeno calor em dias gelados pela dor. São gestos sem preço, de um valor incalculável aos quais eu faço questão de prestar aqui um tributo.

Sim, estou a falar de ti Lena! Conheci-te há uns quatro anos e desde logo senti que eras especial. Havia paixão na forma como dançavas. Mesmo proibida pelo médico de o fazer. Havia paixão na forma como falavas, na forma como me entregaste a tua amizade. Hoje sei que há essa paixão na tua profissão de enfermeira. Sei que fizeste o meu avô sorrir, mesmo que por instantes. Sei  que te estou muito grato. Sei que se os anjos andarem pela terra, vão todos querer ser como tu. Obrigada.
06
Out06

Naquela manhã.

Marco
Naquela tarde principio de noite, ao chegar a casa, algo estava diferente. Igual, mas diferente. Igual às outras noites, diferente do que sonhara. Havia uma espécie de vazio que enchia todos os compartimentos. Ao percorrê-los, André sentiu-se estranho. Sentou-se na sala e procurou a companhia da televisão. Alguém que lhe dissesse boa noite, que lhe dissesse alguma coisa, por mais distante que fosse. André estava cansado de mais um dia de trabalho. André estava com sono. André adormeceu. Adormeceu a esperar.

Naquela tarde principio de noite, havia trabalho para fazer. Projectos para concluir. Havia uma espécie de frenesim que enchia todo o seu tempo, todo o seu pensar. A Joana gostava tanto do que fazia porque o fazia por amor. Amor a si própria, à sua carreira. O seu verdadeiro amor. O amor da sua vida. E assim, mais uma noitada, mais uma directa, mais uma maratona cheia de ideias, vazia de si mesma. Joana esvaziava-se.

Naquela noite principio de madrugada André acordou torto no sofá. Doía-lhe o pescoço. Olhou em redor. E lá estava, o vazio fazendo-lhe companhia. A companhia que não desejava. André foi deitar-se, ligou a aparelhagem e deixou-se dormir. De manhã, quando acordou sabia-o inevitável. Tomou banho, vestiu-se e saiu. Ao despedir-se não houve beijo. Não houve nem um bom dia. Não houve nada disso. Mas André despediu-se na mesma. Naquela manhã, André disse adeus ao vazio e voltou a sonhar.
04
Out06

Frases à solta.

Marco
Saído da escuridão, mais brilhante do que mil sóis. Esta frase, assim, de repente a encher estas quatro paredes que me rodeiam. Mais do que isso, a encher-me de pensamentos. Primeiro, o negro. A escuridão que tantas vezes nos esmaga, tornando-nos perdidos de nós próprios. Sem rumo. Sem destino. Apenas caminhantes de coisa nenhuma. Peregrinos do nada. Devotos da conformação. Andando. Andando pelos corredores da suposta inevitabilidade.

De repente, a luz. Vinda de todo lado ou de parte nenhuma. A luz reluzindo-se a si própria. Tão luminosa como inesperada. O despertar. Acaba o opaco. Acaba tudo para que tudo possa começar. E viver é outra vez. E sonhar é outra vez. E sorrir é outra vez. E tudo é outra vez. E outra vez. O brilho. Não de um, não de cem, não de mil. Mais de mil sóis. Muitos mais. Quanta luz. Tudo é nítido. Tudo faz sentido. Tudo é possível desde que o tornemos possível.

Saído da escuridão, mais brilhante do que mil sóis. Serei eu? Hoje? Ou amanhã? Olho em redor. Vejo. Não vejo. Quero. Não posso. Mas quero. Mas não posso. E vejo. E volto a ver. Tanta luz. Tanto escuro. A luz, ali. O escuro, aqui. A luz, lá à frente. Está ali. Busco-a. Como brilha! Tento. Quero tornar-me possível. Mergulhado em pensamentos decido fechar-me, desligar-me. Por hoje.
Alguém que me salve, alguma coisa que me salve de mim próprio. Esta frase, assim, de repente a encher estas quatro paredes que me rodeiam. Mas sobre esta, prefiro não pensar.
03
Out06

É a vida!

Marco
Era capaz de jurar que te vi. Era capaz de jurar que hoje um sorriso se rasgou e percorreu todo o meu existir. Era capaz de jurar que o nosso olhar se cruzou. Não um simples olhar. O nosso olhar. Aquele olhar que vê para além do visível. Que vê para dentro. Era capaz de jurar que na noite houve luz e que essa luz eras tu, nesse teu jeito único de seres quem és. Era capaz de jurar que estás aqui, mesmo aqui onde me fundo com as palavras. Onde me fundo com o mundo.

Era capaz de jurar que é mentira. Tem de ser mentira. Não pode ser verdade que estejas doente. Não, não estou a falar para ti que habitas no primeiro parágrafo e na minha memória. Agora estou a falar para ti, que me viste crescer, que me ajudaste a ser quem sou, que me inspiraste a sorrir sempre para a vida. Era capaz de jurar que nada disto é verdade. Era capaz de jurar que te vi a procurar bolas de ténis enquanto me esperas da natação. Era capaz de jurar que te vi a dormir de tarde para poderes ir trabalhar noite fora.

Era capaz de jurar que tudo isto é viver e que viver é mesmo assim. Era capaz de jurar que me sinto trespassado pela vida na sua plenitude. O óptimo a cruzar-se com o péssimo. A alegria com a tristeza. A esperança com a dor. O sonho com o pesadelo. O tudo com o nada. Talvez na vida não exista mesmo meio termo. Não sei. Mas sou capaz de jurar que viver é muito bom. Sou capaz de jurar que vou em busca de todos os sorrisos, todos os olhares. Sou capaz de tudo isso. Sou capaz de tudo mais.

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