Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

16
Jun06

Nos dias da eternidade.

Marco
Por onde andas, eterna juventude? Desconfio que fugiste de braço dado com a imortalidade, não sei ao certo para onde, provavelmente ao encontro de outra criança, inocente, pura, que por agora apenas brinca, brinca, brinca.

Tenho saudades dos dias intermináveis. Tenho saudades das férias no quintal de Benfica onde um baloiço garantia temporadas de diversão. Tenho saudades dos almoços à uma da tarde em Cascais. E depois brincar, brincar, brincar.

E nós os dois por casa, inventando, jogando, brincando todo o dia, todos os dias. Sim, não preciso de dizer quem, porque sabes muito bem que falo de ti. Com tempo para tudo, sem pensar em mais nada a não ser ganhar o próximo jogo.

Hoje o tempo fustiga-nos. Desgasta-nos. Rouba presenças forçando ausências. Traz responsabilidade levando inocência. Mas dizem que é mesmo assim. Que é normal. No que me diz respeito, quero continuar desconfiado.  
14
Jun06

Na luz da noite.

Marco
Era apenas mais um regresso a casa. Como tantos outros. Escuro. Solitário. Mosquitos e mais mosquitos estranhamente atraídos por uma luz que lhes precipita o fim, como que numa dança suicida, qual ritual, qual seita. Por vezes penso que na hora da criação, certas coisas não foram previstas e uma delas foi certamente o automóvel.

Voltando, à história e por isso a casa, eis que do escuro se fez luz. E que luz. Num instante e por um instante, dia de novo. Sempre tive um respeito muito especial pela trovoada. É algo de muito superior a todos nós. É algo de estupidamente bonito, talvez por ser tão breve. Tão divino.

Ao testemunhar este espectáculo, dei-me por feliz. Que privilégio o meu, este de me dar ao luxo de regressar a casa por uma estrada deserta, escura, no meio do nada. E do nada, tudo e logo tão belo. Que bom que é viver assim.
13
Jun06

De ti para todos nós.

Marco
É na Alemanha que o mundo acontece. Durante um mês, nada de guerras, nada de fome, nada de injustiça, nada de nada. Ou se calhar um pouco de tudo, mas por agora sem importância. Só Alemanha, Alemanha, Alemanha. Eu próprio foco a minha atenção nesse país embora por motivos diferentes.

Tenho lá um grande amigo que todos os dias trabalha para que as histórias dele sejam também as nossas. Imagino-o percorrendo ruas e ruelas, observando, registando, gravando e mais tarde escrevendo ou descrevendo. Sabe fazê-lo com grande mestria e por isso é muito o orgulho que sinto nele.

Provavelmente estamos ambos a escrever neste preciso momento. Eu sobre ti e tu para todos nós. Por isso te peço: continua. Amanhã, quando saíres à rua, fica bem atento. Usa os teus instintos para nos trazeres muito mais do que aquilo que os outros trazem. És um verdadeiro seleccionador de histórias e acredita que todos nós, conscientemente ou não, contamos contigo. Força nisso Filipe! Grande abraço.
12
Jun06

Dois anos depois.

Marco
Hoje é dia doze de Junho. Véspera de Santo António. Faríamos dois anos. Lembras-te? Tenho a certeza que sim. É impossível passar por este dia como se nada fosse. Mas hoje, de facto, nada é.

Acho que ainda não desisti de perceber o porquê. Não falo numa perspectiva de voltar ao passado mas sobretudo para poder olhar o amanhã mais esclarecido. Não sobre ti. És como és, serás sempre assim e ficaste no teu lugar, especial sem dúvida, mas lá atrás no já longínquo dia de ontem.

Hoje é dia doze de Junho e visto que é impossível esquecer, prefiro lembrar o que de bonito aconteceu. E foi tanta coisa. Lembro aqueles cânticos maravilhosos que ainda hoje me arrepiam, lembro a tua entrada, lembro o que senti (e só eu sei o que senti!), lembro a cerimónia, lembro a festa, lembro a felicidade de viver um dia de uma vida.

Hoje restam centenas de fotografias, memórias que o tempo vai levando e uma lição que ambos soubemos desde o dia um: não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Nesse aspecto, tinhas mesmo razão!
09
Jun06

O não que não gosto.

Marco
Não sei muito bem por onde ando. Sei que caminho, todos os dias em direcção a parte nenhuma. Não que busque um destino. Uma meta. Procuro apenas caminhar, viver. Que vida? Também não sei. Ando à procura, ando a ver. Não me demito de viver. Não me demito de tentar. Não gosto do não. Ou melhor, há um que até gosto. Daquele que sendo não, o é. Assumidamente. Com personalidade. Com fundamento. Mesmo que não o deseje.
Exemplos? Não posso. Não quero. Não gosto. Não vou. Não sei. Não, não e não!

O que realmente não gosto é do não que não existe. Ou melhor, que existe por não existir. Que apenas se dá a entender. Cobardemente. Não se assumindo. É o ausente. É o que opta pela não vivência. Esse não gosto. Não o quero. Não.
Exemplos? Não sei se posso. Não sei se quero. Não sei se gosto. Não sei se vou. Não sei se sei. Talvez sim, talvez não. Talvez…
08
Jun06

À Adelaide, à Marta e ao Nuno.

Marco
É sábado, de manhã. Muito cedo. Tenho até vergonha de dizer as horas, já que ninguém se levanta tão cedo no raiar do fim de semana. Mas nós temos uma missão. Muito bem definida. Ambos sabemos o que queremos e vamos fazer tudo para o conseguir.

Não sei o que estás a fazer a esta hora. Desculpa tratar-te por tu, mas creio que ofensivo ofensivo seria um distante e formal você. Imagino-te em frente ao espelho numa busca meticulosa desse malandro traidor chamado cabelo branco. Contigo não têm muita sorte. Se se deixam apanhar, já eram.

És uma pessoa especial. Partilhas comigo uma mania a que gostam de chamar capricho. Ambos sabemos que não. Apenas, vá lá, um gosto muito especial pela música. Só nós sabemos o valor daquele disco, daquela edição limitada numerada, ou mesmo aquela antologia que vale não pelas canções – já as temos todas na mais completa das discografias, mas pela caixa onde vem, feita em pele, repleta de fotos e entrevistas inéditas. Feita a pensar nos verdadeiros fans. Como nós. Só nós.

Por isso vamos os dois. Aos sábados de manhã. Íamos os dois. Já não vamos. Infelizmente. Este sábado voltei lá e senti-me só. Gente, muita gente e no entanto, eu completamente só. A vida por vezes é mesmo assim. Troca-nos as voltas. Primeiro fui eu. Fui, enganei-me, voltei, mas já não te apanhei. Tanta conversa para pôr em dia, tantos sábados de manhã e nada. Nem sequer aquele abraço de que falavas. Nem sequer esse abraço. Vim tarde demais. Agora foste tu. Barradas. 
07
Jun06

Para ler, ler, ler...

Marco
Existem frases esmagadoras. Perfeitas. Julgo mesmo que sempre existiram como grandeza conceptual, esperando milhões de anos até que algum génio tivesse a capacidade de lhes dar corpo sob a forma de letras, para que todos as possamos ler e compreender.

Frases que nos fazem parar. Que nos obrigam a uma segunda leitura. E uma terceira, ainda mais atenta e admirada do que a anterior. E depois os pensamentos, correndo a mil à hora. A confrontação. A razão.

Mia Couto escreveu: "Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que a doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer".

Mais palavras para quê? Vou antes continuar a lê-la porque ainda tenho muito que assimilar.
06
Jun06

Agora, o que resta?

Marco
És divertida. Eu pelo menos acho-te divertida. Não sei se pelo teu jeito meio louco, em que certo certo apenas o incerto. A verdade é que me fazes rir, algo que não está ao alcance de muita gente.

Tudo começou (tudo talvez seja exagero... até porque nada começou) num sábado destinado a ser igual a todos os outros. Os protagonistas do costume no mesmo local de sempre. Todos mais tu. Como a empatia tem destas coisas – a empatia é um fenómeno que me fascina, não se explica, sente-se – senti imediatamente algo de diferente em ti.

Talvez o jeito, talvez o à vontade, talvez o humor, talvez tudo, ou nada, sei lá e também que interessa isso? Para mim, eras de facto diferente. O tempo ajudou a confirmar essa minha ideia. Que eras diferente...

Agora, o que resta? Não sei. Nem tu sabes. O amanhã é tão longe que pensar nele é perder o tempo precioso de hoje. E hoje há tanto para fazer, tanto para viver. Mesmo que longe ti.
05
Jun06

Hoje vi o sol nascer!

Marco
Hoje vi o sol nascer. Começou a dar os primeiros sinais de vida quando uma claridade envergonhada foi ganhando vantagem sobre a noite que durava há largas horas. Escura. Misteriosa. Só. Num repente, era possível ver. Ou melhor, vislumbrar. Formas que voltam a ganhar o seu contorno, mas numa cor que nunca têm. Ou será que têm?

A luz do amanhecer encerra sobre si uma magia que me fascina. Não sei se é por ter a sensação de que sou o único a presenciá-la, num gesto de assumido e orgulhoso egoísmo. Como se a natureza quisesse premiar a minha alvorada com uma paisagem apenas ao meu alcance. Toma, é para ti, durante uns minutos e não contes a ninguém!

Será que estou a trair a sua confiança com estas palavras?

Hoje vi o sol nascer. Tal como nas outras manhãs, fê-lo tão silenciosamente que o mar nem deu por isso, deixando-se dormir até às tantas. Já repararam que o mar acorda sempre tarde? Tal como o vento. Aliás, permanece para mim um mistério, saber qual dos dois acorda o outro.

Se calhar, isso nem acontece e são simplesmente dois bons amigos que de vez em quando combinam encontrar-se para um dia bem passado. E que bons são esses dias! As conversas, os risos e sorrisos, as recordações, os planos, os segredos, a vida.

Felizmente consigo lembrar-me de vários que poderia incluir no parágrafo anterior.

Hoje vi o sol nascer. E que esperto que ele é. Na minha opinião, o acto de nascer todos os dias é das atitudes mais inteligentes que se pode ter na vida. Nascer com vontade de aprender, sentir, experienciar, tocar, viver. É preciso viver todos os dias. Urgentemente. Por isso e da parte que me toca, fico-me já por aqui. A razão é simples. Hoje vi o sol nascer. E ele viu-me a mim.

Pág. 2/2

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2010
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2009
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2008
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2007
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2006
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D