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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

25
Jun09

Inventor.

Marco

Ao Gerson chamo-lhe o Inventor e chamo-lhe o Inventor não só pelo penteado de choque eléctrico mas porque do nada arranca coisas que passam a existir, coisas de verdade que por certo testa em noites de insónia, fechado no seu laboratório, escondido entre tubos de ensaio fumegantes, esperando numa paciência de Samurai a perfeição que sempre acaba por acontecer e nesse preciso instante, claro, os seus olhos castanhos cor de amêndoa, brilhantes, cristalinos, enormes, a sorrir, felizes por mais uma conquista, capazes de significar todas as palavras, todos os livros, o Gerson, imagino-o a correr em direcção ao seu bloco de notas, de caneta na orelha, para assentar o segredo da sua imensa alegria, fórmulas indecifráveis cheias de X's e Y's que depois resume numa simples ginga de cintura e num olhar carregado de verdade que só é possível admirar, não tanto invejar, mas admirar, o Inventor, sempre perdido em ruas de labirinto, sempre esquecido das horas, dos dias, até dos meses, preocupado que está em fazer contas a uma vida que teima em fintá-lo, sem sucesso, porque em tempo útil o Gerson percebeu o segredo das coisas simples, entendeu na perfeição o significado de um abraço sentido, descobriu o valor único dos corações limpos e soube, nesse momento, nessa fracção de segundo, que seria feliz, que nada poderia estragar a magia que carrega e que a nós, comuns mortais, vai emprestando em formato de gingas inesquecíveis em vez de nos maçar com incógnitas que, por mais que nos esforcemos, não vamos nunca conseguir entender.

26
Mai09

Quanto o texto acabou.

Marco

Desisti de escrever no dia em que senti a caneta a tropeçar-me entre linhas e as letras a caírem-me ao chão, desamparadas, esmagadas ao peso da gravidade, transformadas em pedaços irreconhecíveis, ideias partidas, perdidas num tempo que me desapareceu e se tornou em nada e portanto sem partículas, sem ínfimas moléculas escondidas dentro de estranhas equações, tempo despido, envergonhado, tempo desperdiçado num olhar mentiroso, silenciado por esse desejo impossível de falar, amarrado às evidências, impotente, caminhando devagar numa rendição que sempre venceu, tremenda e orgulhosa, egoísta, certamente egoísta, vestida de branco incandescente, voando à força do vento, espalhando-se com ele e com ele levando as migalhas de palavras nunca ditas, os poemas mais perfeitos mascarados de frases de engano, retocados por sorrisos jogados ao desafio, qual fado já desde sempre escrito e cantado em escuras vielas onde perdidos de encontram para rituais de lamentação, chorando planos de eternidade em horas de boa disposição disfarçada, cínica e assim, claro, texto nenhum possível de se equilibrar em cima de finas linhas azuis escuras, ou se calhar lilazes, não as consigo ver bem, parecem-me ao mesmo tempo iguais e diferentes, tropeçam-me as palavras, caiem-me as letras e eu a vê-las cair, impotente, a assistir ao fim deste texto para sempre inacabado...

19
Mai09

Escrito numa fita.

Marco

Quando o peso das barbas já lhe curvava a coluna o sábio sentou-se em cima da árvore cinzenta desenhada no chão pelo sol e corou ao perguntar-se a si mesmo - mas afinal o que sei eu? sem ver nenhuma resposta concreta, palpável, a emergir para lhe aliviar aquele desconforto inesperado. Tentou lembrar as intermináveis horas de ensinamentos, livros que todos juntos seriam impossíveis de contar, páginas de eterno conhecimento que se cruzaram fugidias com o seu olhar, tempo que julgou fundamental e agora apenas tempo passado, vida que estava por ser e agora já vivida, memórias que os dias transformavam em nevoeiro espesso, típico das manhãs que acordam mal dispostas. O sábio sabia que tinha sabido, só não sabia o quê.
Quando aquela imagem se tornou demasiado insuportável o aprendiz entendeu que o seu conforto estava agora desconfortável e nesse instante, subiu a ladeira que levava até ao velho carvalho onde estava sentado o seu mestre, derrotado por um peso que o reduzia a escombros, subterrado dentro de um corpo vencido que lhe desobedecia
- tu aqui, a veres no que me tornei...
e silêncio, um silêncio que era uma suave brisa de primavera
- mas afinal o que sei eu?
a pergunta que era apenas sua agora dos dois, a pergunta derradeira, sombria, a deixar-se levar pelo vento, deixando-os ainda mais sós, naquele fim de manhã que parecia não poder nunca transformar-se em futuro...
- mas afinal o que sei eu, eu que a todos chamam de sábio?
- o mestre é sábio não por tudo saber mas sim por tanto ensinar!
e saiu, descendo a colina em direcção ao riacho que corria cristalino, transportando consigo a inabalável força das coisas que têm de ser. Mais tarde, quando passou nesse mesmo local, voltou a avistar o seu mestre, na mesma debaixo do velho carvalho, mas agora menos curvado e olhando o horizonte como se tudo o que visse fosse pouco ao pé de tudo o que podia ainda alcançar. Nesse instante, sorriu para dentro e caminhou até casa.

23
Abr09

O voo de uma vida.

Marco

Na sala de casa dos meus pais existia um estranho gira discos que a mim, puto, me lembrava uma nave extraterrestre, circular, branco e preto, encimado por um tampo de vidro escuro rachado ao meio por uma cicatriz de cola, visto que cedo se viu vítima de uma acrobacia mal sucedida onde nenhum calcanhar era suposto e desde então a cicatriz de cola, dando-lhe aquele ar ferido mas nem por isso menos competente na hora de receber aquelas rodelas escuras que no nosso caso, eram sempre as mesmas duas e assim, ou eu ou o meu irmão, sentados naquele sofá cinzento e preto, mascarados de rato Mickey graças a uns headphones gigantes que ainda por cima, tinham um divertido fio enrolado, igual aos dos telefones de então. O meu chamava-se The Number Of The Beast e o do meu irmão Live After Death. Hoje, sei que foram os únicos discos que mereceram a honra de me terem sentado exclusivamente com o propósito de os ouvir. Diria mesmo escutar, ler, observar, cheirar, beber, absorver, cada detalhe, cada insignificância, cada acorde, como se uma nova e derradeira descoberta, num fascínio sempre renovado que, pasme-se, ainda hoje me consome cada vez que o nome Iron Maiden se cruza no meu caminho, não por qualquer espécie de nostalgia dos tempos em que se levava termo para a escola, mas sim por constatar que, rugas à parte, nada mudou, que tempo nenhum foi capaz de lhes alterar aquela essência que há vinte e cinco anos me fez perceber qual seria "a" banda da minha vida. Por isso, quando na terça feira à noite assisti ao filme Flight 666, assisti sobretudo à longa metragem da minha vida, numa viagem feita aos comandos não do Ed Force One, mas sim de um estranho OVNI branco e preto que, talvez por ter o vidro da cobertura ligeiramente partido, deixava entrar uma leve brisa que, ao bater-me de frente nos olhos, me arrancava à face uma secreta e fugitiva lágrima de emoção.

21
Abr09

Mar de encantamento.

Marco

Às tantas foram-se as ideias todas e eu agora parecido a uma corrente de ar, feito movimento fugitivo de coisa nenhuma, frio, desagradável, sentado em frente das evidências sem ser capaz de lhes ler o óbvio, procurando-lhes o outro lado, apenas o outro lado, na esperança penso que da essência, sim da essência, desse género de segredo escondido, mapa revelador de cada coisa, cada sombra de gente a mover-se por entre espaços ainda desocupados, sem tempo, fugindo, correndo sem rumo rumo a suas casas, sem direcção, à deriva pelas correntes sempre fortes demais para serem contrariadas, as correntes que às tantas me prendem as ideias todas e eu agora aqui, em esforço, lembrando tempos idos, memórias que se ergueram como explosões e das explosões lembro as pessoas, lembro aquelas terras em que ninguém manda, aquelas terras feitas no nada, nascidas da fúria divina, verdes como o paraíso, escuras como o inferno, contrastes, ironias, aceitação, vejo aceitação nos rostos das pessoas, vejo esse saber das regras universais, essa consciência de que o mundo só o muda o mundo, mais ninguém, e daí a aceitação, supremo gesto de sabedoria, quais anciões jogadores de sueca, olhando resignados as cartas que a sorte lhes escolheu, fazendo delas o seu jogo de vitórias, o seu jogo que conquistas, eu a estudar-lhes cada passo, vigiado por um mar que nunca dorme, uma sentinela incansável, sempre disposto a lembrar-lhes o fim das ilusões, tão cruel quanto belo, omnipresente, trazendo aqueles a que chamei os sonhadores das estrelas cadentes, que ali se encontram em datas impossíveis, celebrando o efémero, brindando a um até sempre que ali tudo significa, antes de partirem tal como eu parti, eles rumo a novos portos de abrigo, eu sobrevoando o pôr do sol, olhos nos olhos com a perfeição, deslumbrado e ao mesmo tempo preocupado, preocupado que as ideias me fujam, escorregadias, na hora de descrever o outro lado de tudo o que vi, nos Açores.

25
Mar09

Desabafo!

Marco

Todos se riram, eu mesmo ri quando me contaram, mas aqui em segredo te digo - tens razão Carolina, o titi não é de facto adulto e não sou mesmo, sou se calhar crescido mas não adulto, ainda agora estava aqui a olhar a quantidade de luz que há na rua e apetecia-me correr lá para fora com os bolsos cheios de berlindes e carrinhos de miniatura, apetecia-me jogar à cirumba, apetecia-me as horas de almoço que passava mais a minha bola de basket Molten e os vinte e cinco rebuçados Mouro de um escudo que comprava no café da escola, apetecia-me os Salesianos outra vez e aquelas Olimpíadas em que por uma vez raparigas por ali e nós de t-shirt comemorativa toda escrita só para as impressionar, nomes de bandas, as assinaturas delas, frases estarolas, qualquer coisa, nós de óculos escuros de adulto na cara, nós sem qualquer jeito para lhes chegar às emoções, eu tímido, fazendo lançamentos triplos na esperança de algum sorriso que nunca chegou, quero os Salesianos, quero trocar cassetes de última geração com gravações dos Iron Maiden, quero coleccionar cromos do Era Uma Vez No Espaço e colá-los triunfante na caderneta, quero ir à papelaria do senhor João fazer fotocópias ampliadas do Rambo e colori-las a marcador, quero que chegue logo o fim destes dias de quarenta mil horas no mínimo, quero a natação nos Bombeiros do Estoril ou mesmo baldar-me a esta para ficar a jogar ao guelas no mini-golfe e depois ir molhar a cabeça e o fato de banho na BP do Tamariz para fingir trinta e tal piscinas de bruços e mariposa, quero voltar a achar o Teixeira velho dentro daquela barba farta que lhe cercava o sorriso, ele que era na altura mais novo do este que para aqui escreve e que fingiu rir quando todos se riram, que fingiu achar graça quando todos acharam graça, ternurento, sabendo-te lá no fundo cheia de razão, admirando-te pela sabedoria da tua análise, quando do alto dos teus 6 anos topaste à légua que naquele almoço de aniversário não seriam só adultos, porque estaria lá o teu titi para brincar o tempo todo contigo.

11
Fev09

Os heróis de Margarida.

Marco

Dentro de um cesto que provavelmente já algo desgastado destes anos seguidos de abre e fecha, ela guarda-os a todos delicadamente, respeitando cada um como se peça fundamental de um todo, admirando-lhes a certeza, bebendo-lhes a determinação, agradecendo-lhes aquela vontade férrea para combater em nome de uma causa, um propósito, um destino glorioso para o qual foram talhados desde o dia um, desde a hora inicial, antes de todos os males, primeiro do que todos os azares, no tempo das convicções absolutas em que guerra nenhuma possível de ser perdida, em que sorriso algum capaz de ser apagado, esquecido.

São os seus soldadinhos de miniatura, um exército de invencíveis em fardas de mil cores e rostos de certezas intocáveis, uns de verde escuro e metralhadoras automáticas, outros de peito inchado em vestes de revolução com a suas espingardas manuais, outros, menos, escondidos atrás de potentes canhões, prontos a disparar, prontos a unirem credos e juntos se lançarem em nova ofensiva contra quem quer que lhe faça frente a ela, que tanto os admira, que tantas vezes se esconde no quarto para secretamente procurar o velho cesto, debaixo da cama, nesse escuro de meia noite, onde nenhum inimigo ousa nunca sequer espreitar.

Naquela manhã, ainda o sol era um projecto inacabado e já todos verificavam armamento e munições, prontos para a chamada que minutos depois ecoaria naquele quarto mal iluminado, nome após nome, "presente" seguido de "presente", alinhados, prontos, mobilizados, altivos, capazes, os heróis de Margarida iriam de novo sair para o combate, iriam de novo acompanhá-la escondidos, encorajando-lhe os passos, sentindo-lhe os movimentos, levando-a por diante rumo a nova conquista, nesta guerra de dias intermináveis e horas eternas que ela prefere sempre chamar de processo, apenas mais um processo, mais um processo que sei, tenho a certeza, ela vencerá.

13
Nov08

Dois anos.

Marco

De todas as coisas que nos prometemos um ao outro, não cumprimos ainda o nosso sonho de na minha reforma me instalar em definitivo bem perto do estádio de Alvalade numa casa espaçosa tendo-te a ti como jardineiro, não fossem as flores sofrer com a minha falta de jeito para as regas e para as podas e assim eu bem mais descansado com esses assuntos, preocupado apenas com os meus netos quando eles lá fossem brincar e com o Sporting todos os dias visto que por este andar nem em 2050 será campeão como o teu Porto, com tanto ponto de avanço que nem chega para te preocupares com isso, dando-te tempo para gastares com as coisas que te completam e fazem de ti único.

Dois anos não é tempo nenhum e é tanto tempo sem ti, sem a certeza de te saber nos teus afazeres como a horta - será época de batata? favas? couves? percebo tão pouco da vida, como a pesca - será época de pargo? robalo? safio? percebo tão pouco da vida, percebo tão pouco das coisas que eram as tuas certezas, que sabias desde sempre, tantas coisas que em nenhum livro, em nenhuma enciclopédia, coisas que são a vida, que ensinavas em gestos simples, histórias que contavas, expressões que utilizavas, sabedoria, dignidade, valores que eram uma extensão de ti, que eram naturais, como se isso de ser enorme fosse para todos, fosse uma escolha, uma opção e pronto, já está.

Dois anos não é tempo nenhum e é tanto tempo sem ti, é tanto tempo a não ver-te nos sítios onde estavas sempre, a aleijar-me com o peso da tua ausência, a doer-me na pele cada espaço que não preenches, a perguntar-me porquê e a não saber responder, a lembrar-me quando nós éramos presente e não saudade, esta saudade que agora transformo em palavras, as poucas que encontro para descrever o que sinto, à falta de jeito para fazer outras coisas como as regas e as podas, parece que já estou a imaginar, eu a ir ver o Sporting e a olhar as flores murchas, a relva enorme e a lamentar perceber tão pouco da vida, a lamentar termos deixado este nosso sonho por realizar, de todas as coisas que nos prometemos um ao outro.

03
Nov08

O operacional.

Marco

Os gestos, imagino-os meticulosos. Deve gastar com certeza tempo na perfeição de um vinco, no aprumo de um colarinho, na dobra de umas calças. Faz um tipo de frio a que se desabituou. Deve custar-lhe com certeza o click da mala já fechada, cheia dele mesmo ou seja de tudo aquilo que lhe desenha os contornos, que define a fronteira entre ele e o resto, roupas, objectos, sentimentos, recordações, silêncios. Tudo dentro de um rectângulo que duas pequenas rodas ajudam a transportar rua fora, estrada fora, mundo fora. Diz-se um operacional e é assim que o observo, sempre de serviço, pronto para tudo, corajoso, altivo, empenhado.

Existe um piano de onde escorrega uma melancolia vestida de acordes certeiros. São minutos. Não existem horas ou dias. Apenas minutos que caminham invertidos. Ele conta-os, um por um e na pressa, vive-os, consome-os pegando em todos os sorrisos armazenados para os distribuir qual carteiro na sua bicicleta, morada a morada. Faz um tipo de frio a que se desabituou. Devem custar-lhe os casacos, as camisolas, os cachecóis. Um frio sobre a pele, secando-a, rasgando-a. E os minutos, e a mala, e as dobras, os detalhes alinhados, arrumados, esperando apenas a inevitabilidade do momento para levarem o operacional para longe.

Acontece numa manhã. Acontece sempre numa manhã. Primeiro a pressa de chegar, o carro estrada fora e aquele olhar desconfiado no relógio. Depois o aeroporto, aquele adeus que é sempre até já, o passaporte, o visto e o rectângulo a mover-se ansioso sobre as rodinhas, indeciso se o frio fora ou dentro, o frio já dentro, o frio já o habitual, o do costume, um frio calado que lhe habita o estômago e que voa consigo para o calor de Luanda, onde a vida lhe ensina que ser operacional é isso mesmo, é saber arrumar a saudade sempre muito bem engomadinha, como se pronta a estrear, até ao dia em que os minutos e sempre os minutos a caminhar de novo invertidos.

06
Out08

Aos meus avós.

Marco

16:32h. Enquanto estendo ao comprido a marmelada numa destas tostas integrais que nos prometem mundos e fundos, quiçá a própria vida eterna, estou ao mesmo tempo na Estrada de Benfica e aproveito todos os minutos de tempo para brincar a tudo o que me lembro no pátio que existe nas traseiras da casa dos meus avós, antes que comece o Dartacão e a sua odisseia contra o Vidimer, Richelião, Milady e outros que tais, malfeitores sem vergonha, incapazes de um único gesto de nobreza, um pequeno sinal que liberte o meu herói para uns merecidos minutos de romance junto da sua amada Julieta.

É hora do lanche e sei que o meu avô vai buscar de propósito pão quente e sei também que no regresso, vai passá-lo à minha avó que por sua vez o vai encher de marmelada e servir-mo num tabuleiro redondo às bolinhas cor de laranja, juntamente com um copo de leite. Come-se marmelada nas casas dos avós. E existem sempre frascos com bolachas Maria no seu interior. Assim como rebuçados dentro uma porta onde normalmente também estão umas quantas garrafas de vinho do Porto que raramente se bebem. Dizem que é para ocasiões especiais que sabem vir a acontecer mais tarde ou mais cedo...

16:51h. Enquanto estendo ao comprido estas letras numa das folhas brancas que tantas vezes me servem de esconderijo, sinto o doce travo a marmelada e tenho a certeza que os meus contornos se desenharam nessas saudosas tardes de tempo inteiro, no meio daqueles abraços apertados que os netos sempre levam, debaixo daqueles beijos que na altura sempre queremos evitar. Sei também que hoje não chegarei a tempo para o Dartacão, pois estou demasiado ocupado a recordar como é fácil ser-se feliz, bastando para isso, um pouco de marmelada barrada em pão quente, já agora, servido num tabuleiro redondo às bolinhas cor de laranja.

PS: este texto só foi possível graças ao almoço de ontem com vocês os quatro, sim, porque comigo, andam sempre os quatro.