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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

25
Nov09

O escrevedor de rua.

Marco

Giras as canções que nos fizeram sofrer, não o sofrimento em si, mas as canções, como bolas de sabão cheias de histórias que sem aviso a flutuar entre os olhos, trémulas, frágeis, as canções e já não as canções, os dias, inteiros, olhares, sorrisos, momentos e depois, nada, porque sempre um nada como ponto final parágrafo e por isso o sofrimento eternizado em três quatro minutos de canções que giras porque giras, mas giras também por isso, porque pedaços de nós e às tantas já o artista sem direitos de autor, o artista apenas um pobre coitado a cantar a nossa canção, a fingir-se de banda sonora da nossa vida, o artista num escaparate esquecido, metido lá bem atrás dos mais desinteressantes, cheio de pó dos anos passados, o artista expropriado, vivendo de acordes tocados para ninguém, esperando que alguma moeda a tropeçar e a estatelar-se ao comprido no chão, perto de si, o artista a tocar, eu a escrever fazendo-me dele, aqui sentado como se num túnel de metro, as pessoas à minha frente, passando com pressa para irem a sítio nenhum, gira esta imagem, o escrevedor de rua, dedilhando palavras não lidas, escrevendo frases que o vento faz voar até se perderem no céu como os balões das crianças distraídas - e que triste era vê-los pequenos e mais pequenos tão pequenos até que nuvens apenas, os textos flutuantes, as palavras, pergunto: quantas frases fez hoje a chuva cair no chão, quantas gloriosas composições afogadas em poças de água castanha, o artista esquecido, o escrevedor de rua, eu a remexer papéis e mais papéis, eu a arrumar lápis e canetas, eu a pegar no banco onde por horas fingi que fui feliz, eu já de pé, caminhando rua fora, lembrando todas canções giras que ainda não ouvi, olhando fundo dentro do meu chapéu, procurando talvez uma ou outra moeda com os joelhos ainda em ferida, caminhando, caminhando...

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