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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

03
Nov08

O operacional.

Marco

Os gestos, imagino-os meticulosos. Deve gastar com certeza tempo na perfeição de um vinco, no aprumo de um colarinho, na dobra de umas calças. Faz um tipo de frio a que se desabituou. Deve custar-lhe com certeza o click da mala já fechada, cheia dele mesmo ou seja de tudo aquilo que lhe desenha os contornos, que define a fronteira entre ele e o resto, roupas, objectos, sentimentos, recordações, silêncios. Tudo dentro de um rectângulo que duas pequenas rodas ajudam a transportar rua fora, estrada fora, mundo fora. Diz-se um operacional e é assim que o observo, sempre de serviço, pronto para tudo, corajoso, altivo, empenhado.

Existe um piano de onde escorrega uma melancolia vestida de acordes certeiros. São minutos. Não existem horas ou dias. Apenas minutos que caminham invertidos. Ele conta-os, um por um e na pressa, vive-os, consome-os pegando em todos os sorrisos armazenados para os distribuir qual carteiro na sua bicicleta, morada a morada. Faz um tipo de frio a que se desabituou. Devem custar-lhe os casacos, as camisolas, os cachecóis. Um frio sobre a pele, secando-a, rasgando-a. E os minutos, e a mala, e as dobras, os detalhes alinhados, arrumados, esperando apenas a inevitabilidade do momento para levarem o operacional para longe.

Acontece numa manhã. Acontece sempre numa manhã. Primeiro a pressa de chegar, o carro estrada fora e aquele olhar desconfiado no relógio. Depois o aeroporto, aquele adeus que é sempre até já, o passaporte, o visto e o rectângulo a mover-se ansioso sobre as rodinhas, indeciso se o frio fora ou dentro, o frio já dentro, o frio já o habitual, o do costume, um frio calado que lhe habita o estômago e que voa consigo para o calor de Luanda, onde a vida lhe ensina que ser operacional é isso mesmo, é saber arrumar a saudade sempre muito bem engomadinha, como se pronta a estrear, até ao dia em que os minutos e sempre os minutos a caminhar de novo invertidos.

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