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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

24
Jan08

A caçadora de instantes.

Marco
Era de manhã que gostava de pegar nesse monte de palavras complicadas como objectiva, obturador, tripé, diafragma, foco, profundidade de campo, e sair com elas bem guardadas à caça de instantes, a fim de os eternizar, como se isso do tempo fosse coisa possível de parar numa fotografia e como se nesse pedaço de instante houvesse o derradeiro testemunho de uma verdade universal, assim como a terra, assim como o mar, assim como o vento fresco que a acompanhava nessas horas ensonadas em que, com um monte de palavras complicadas, jurava ser completamente feliz.

Dizia em jeito de brincadeira que a essa hora a mentira ainda dormia, mas sentia, sentia de facto que durante a manhã, a verdade existia e podia ser tocada, como se o dia fosse mais honesto nessa hora, mais nítido, pintando a cores de poesia instantes impossíveis de descrever senão nos cliques que fazia com esse monte de palavras complicadas como objectiva, obturador, tripé, diafragma, foco, profundidade de campo, e com as quais alimentava toda a sua essência como pessoa onde cabiam ainda palavras menos complicadas como sonhos, ideais, simplicidade e felicidade.

Quando lhe perguntavam porquê sonhos, porquê ideais, porquê simplicidade, porquê felicidade, respondia apenas com um sorriso que explicava muito mais do que frases elaboradas que por mais lógicas, nunca ninguém entendia e por isso, um dia, pegou nesse monte de palavras complicadas como objectiva, obturador, tripé, diafragma, foco, profundidade de campo, juntou-lhe as menos complicadas e partiu, de sorriso no rosto, à procura da verdade de outras manhãs, porque para a caçadora de instantes, o mundo era belo demais para escapar à compreensão daqueles que, todos os dias, faziam questão de o ignorar.

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