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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

15
Out07

O pinhal.

Marco
É verdade que as mãos ficavam todas sujas, umas vezes negras, ásperas, outras vezes pegajosas, a colar os dedos uns nos outros. Como cola. É verdade, mas sabia tão bem mexer nas pinhas e descobrir-lhes os pinhões escondidos e depois parti-los com uma pedra, cheio de cuidados para não os esmagar. Sentir aquele sabor único, misto de paladar e conquista, aventura, sim, os pinhões sabem a aventura infantil, sabem aos tempos que não voltam, sabem a nostalgia e eu hoje apeteceu-me correr pinhal a dentro à sua procura.

Nunca tinha reparado na inclinação dos pinheiros. Vinte e oito anos a passar por eles, mas só hoje aquele ângulo quase deitado, impossível, como se o vento todos os dias, a vergá-los ao seu próprio peso e eles ainda assim altivos, muito dignos, num esforço desumano para ali estarem, belos. Naqueles breves minutos, cheirou-me de novo a resina. Foi como se tivessem sido ontem os tempos de menino e cada pinhão cada vitória, o tal sabor único, as mãos imundas e o tempo todo pela frente, à minha frente, eterno.

Regressar é assim. Pode demorar um dois dias, horas apenas, não interessa. É regressar, é pisar de novo aquele chão, aquela terra, é sentir toda a força das raízes que nos fizeram pessoas. É bom regressar. Voltar a ver o que sempre foi e curioso, constatar que afinal nada é para sempre. Tudo muda. Eu mesmo, mudei. Se mudei. Só que hoje, enquanto me detive à beira daquele pinhal esquecido, diminuí de tamanho e voltei a sonhar todos os sonhos do mundo ao mesmo tempo que contava as pinhas no chão, fazendo um esforço terrível para não pegar numa pedra e correr a saborear de novo o gosto da conquista.

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