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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

24
Set07

À porta.

Marco
Sabia bem que as letras como que secavam dentro das palavras que escrevia, talvez porque fosse tarde e a sua cabeça já num lugar distante, talvez, mas a verdade é que o poema todo ele no início, mesmo ali à sua frente, nem ainda poema, mais um conjunto de rimas soltas, sílabas juntas ao sabor do acaso até que a campainha ou finalmente a campainha, e ela do outro lado, deformada naquele buraquinho da porta, expectante, olhando o chão ao mesmo tempo que mexia no brinco da orelha direita.

Sabia bem que aquele caminho lhe consumia todos os pensamentos, como se as ideias lhe escorressem pernas abaixo e logo esmagadas no chão tipo pegadas, gravadas em cada passo que dava, perdidas ali, entregues a ninguém, pisadas vezes sem conta nesse caminho que era o seu, as pedras da calçada formando desenhos que sabia de cor, as montras cheias de coisas que não queria, as esplanadas e os bons dias do costume, a porta número sete, as escadas de madeira já velha e a campainha que mal se ouvia.

Sabiam bem as palavras que não iam dizer, os olhares que não iam cruzar, os gestos que não iam trocar. Sabiam de cor a outra face da porta, de um lado um poema por escrever, apenas um conjunto de rimas soltas, sílabas juntas à espera de uma campainha que chegou tarde; no outro lado, um enorme nada naquele olhar de em contra o chão, como que a observar os pensamentos debaixo dos seus sapatos, pisados e repisados. Sabiam tudo um do outro e sabiam-no tão bem que viraram costas à porta não fosse ela abrir-se sem querer.

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