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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

06
Set07

O camaroeiro.

Marco
Lembro-me de um dia ter decidido ser caçador de borboletas, parecido com aqueles dos filmes, sempre muito hirtos, muito sérios dentro daqueles fatos em tons de castanho ora escuro, ora claro, algo ridículos, reconheça-se. Já para não falar dos chapéus, parolos, à explorador de trazer por casa. Sei que naquela manhã quente de Verão, eu seria isso tudo, ou quase, munido apenas de uma vontade férrea e de um camaroeiro manhoso que o meu avô utilizava nas suas pescarias, julgo que para apanhar polvos.

Nunca o acompanhei nessas noites em que os cigarros faziam de farol, no cimo das rochas algures nas praias de Cascais. Conhecia os safios pelo nome, assim como as douradas, os pargos, as trutas, os robalos, todos quantos lhe passaram pelo anzol, atraídos na certa pelo azul lindo dos seus olhos. Julgo que nessas noitadas de cigarro aceso, se encontrava consigo mesmo, com a sua paz interior, ali, ao som das ondas, atento a uma cana quieta, à espera de um sinal que por vezes nunca chegava. Mas não fazia mal. Não fazia mesmo.

De manhã, era outra vez dia e lá chegava ele, com os seus baldes cheios de sorrisos para nós, para mim. A rede do camaroeiro estava já velha, escura, cansada de polvos e desabituada a borboletas. Julgo que nem sequer as conhecia e por isso, naquela manhã quente de Verão, a vida continuou por mais algumas horas para uma bonita borboleta branca que não consegui apanhar. Lembro-me bem desse dia, estou a ver o quintal e o longo canavial que hoje virou escola. Era grande, misterioso. Divertido.

Fazes-me falta. Tanta falta. Ontem à noite quando avistei um pescador na praia tive a certeza que eras tu, apeteceu-me calçar umas galochas e ir ter contigo, passar a noite toda a observar-te, a ouvir-te. Tenho a certeza que me ensinarias os nomes todos dos peixes, fumarias um cigarro ou outro e de manhã voltaríamos triunfantes a casa, com os baldes cheios de sorrisos para os netos traquinas, incansáveis, armados em exploradores de trazer por casa, a pedir-nos o camaroeiro emprestado, imagina tu, para ir apanhar borboletas.

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