Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

27
Ago07

Na estrada de regresso.

Marco
As árvores. As árvores pareciam formar um túnel dentro da noite, já avançada, quase perto de mais um fim. Dentro do túnel, o carro, o carro só, vazio, a deslizar por entre as curvas fechadas, quase traiçoeiras, esquecidas ali, naquele sitio quieto, abandonado, suspenso de existência, longe de tudo, repleto de imagens vagas, sucessivas, cenários e ideias, eu, tu, não, mais imagens e nova curva, o impensável é aqui enorme, vem comigo, leva-me, traz-me de regresso, depois de tudo, antes de nada, num tempo que já não é meu, que fica para trás a cada instante.

As árvores. Dentro delas não deve acontecer tempo e penso: não fui eu, não fui eu que escolhi sufocar todo o ar que dentro dos suspiros. Não escolhi nada disso. Gosto deste momento só meu. Nesta hora, ninguém me descobre, apetece-me acelerar por entre as árvores e pedir que não acabem nunca, apetece-me este túnel dentro da noite, as curvas repletas de imagens que não existem, minhas, só minhas, impossíveis, imagens, pensamentos, não fui eu, não fui eu que escolhi calar todas as músicas que não acabavam nunca, eternas, gigantes.

As árvores não podem fugir da vida. Não podem escolher que destino, que futuro. São inevitáveis. Aqui, atentas mim, a passar dentro delas, a ser parte de um enorme nada, adeus, e o carro, o carro só, vazio a deslizar fora das horas, do tempo, das imagens que não escolhi lembrar, dos momentos que não escolhi recordar, não, já não. Nova curva e uma luz, primeiro distante, depois mais próxima, mais e mais, quase me encandeia, grava-se na minha retina, acompanha-me mesmo depois de passar. Porque tudo passa. Tudo passa. Não, não fui eu. Não fui eu que escolhi parar com todas as letras que existiam dentro deste texto.

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2010
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2009
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2008
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2007
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2006
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D