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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

07
Ago07

Flutuando.

Marco
Atrás de um balcão se deixou ficar, emprestando o sorriso a todos quantos passam sem a saberem longe, projectando um futuro melhor, no outro lado do mundo, o lado de onde veio para distribuir talheres e menus aos que por ali se sentam a fim de petiscar. Tem cara de criança e um nome impossível de repetir. Sua voz é ligeira, mais frágil do que um fino cristal e as palavras saem com vergonha de si mesmas, talvez pela pronuncia ou então por serem tão poucas naquela língua estranha para si. Novo cliente, lá vão os talheres e o menu atrás de mais um sorriso emprestado.

Viver pode ser só isto mas Rio não parece incomodar-se com a ideia. Dirige-lhe uma frase qualquer e vira costas para atender mais um pedido. O nosso. Acha-nos piada. Julga-nos do Brasil. Ele da Colômbia. Arranha um espanhol aportuguesado e recolhe apressado. Parece-me feliz ao mesmo tempo que o suor se precipita do seu rosto moreno. No céu, explode a ira divina numa sequencia de relâmpagos impressionante. Começa a chover fortemente neste pedaço de paraíso já por todos descoberto. Recolhe-se o balcão, abriga-se o sorriso, não vá ele gastar-se com a água.

Viver pode ser de facto só isto. Ou tudo isto. Sentado volto a mim e retomo os pensamentos que deixei em mais de uma hora de flutuação naquelas águas mornas e azuis. Na minha cabeça, o regresso, que regresso? Que eu depois de tudo isto? Que vida? Que projectos? Olho o sorriso e ele sorri-me mesmo sem talheres nem menu. Julgo que foi oferecido e não emprestado. Pergunto: quem é que rasga o mundo ao comprido para vir emprestar sorrisos? Na ausência de resposta desvio o meu olhar envergonhado e dou-me por feliz ao saber que afinal, amanhã, posso flutuar sem pensar em coisa nenhuma.

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