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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

26
Mai09

Quanto o texto acabou.

Marco

Desisti de escrever no dia em que senti a caneta a tropeçar-me entre linhas e as letras a caírem-me ao chão, desamparadas, esmagadas ao peso da gravidade, transformadas em pedaços irreconhecíveis, ideias partidas, perdidas num tempo que me desapareceu e se tornou em nada e portanto sem partículas, sem ínfimas moléculas escondidas dentro de estranhas equações, tempo despido, envergonhado, tempo desperdiçado num olhar mentiroso, silenciado por esse desejo impossível de falar, amarrado às evidências, impotente, caminhando devagar numa rendição que sempre venceu, tremenda e orgulhosa, egoísta, certamente egoísta, vestida de branco incandescente, voando à força do vento, espalhando-se com ele e com ele levando as migalhas de palavras nunca ditas, os poemas mais perfeitos mascarados de frases de engano, retocados por sorrisos jogados ao desafio, qual fado já desde sempre escrito e cantado em escuras vielas onde perdidos de encontram para rituais de lamentação, chorando planos de eternidade em horas de boa disposição disfarçada, cínica e assim, claro, texto nenhum possível de se equilibrar em cima de finas linhas azuis escuras, ou se calhar lilazes, não as consigo ver bem, parecem-me ao mesmo tempo iguais e diferentes, tropeçam-me as palavras, caiem-me as letras e eu a vê-las cair, impotente, a assistir ao fim deste texto para sempre inacabado...

19
Mai09

Escrito numa fita.

Marco

Quando o peso das barbas já lhe curvava a coluna o sábio sentou-se em cima da árvore cinzenta desenhada no chão pelo sol e corou ao perguntar-se a si mesmo - mas afinal o que sei eu? sem ver nenhuma resposta concreta, palpável, a emergir para lhe aliviar aquele desconforto inesperado. Tentou lembrar as intermináveis horas de ensinamentos, livros que todos juntos seriam impossíveis de contar, páginas de eterno conhecimento que se cruzaram fugidias com o seu olhar, tempo que julgou fundamental e agora apenas tempo passado, vida que estava por ser e agora já vivida, memórias que os dias transformavam em nevoeiro espesso, típico das manhãs que acordam mal dispostas. O sábio sabia que tinha sabido, só não sabia o quê.
Quando aquela imagem se tornou demasiado insuportável o aprendiz entendeu que o seu conforto estava agora desconfortável e nesse instante, subiu a ladeira que levava até ao velho carvalho onde estava sentado o seu mestre, derrotado por um peso que o reduzia a escombros, subterrado dentro de um corpo vencido que lhe desobedecia
- tu aqui, a veres no que me tornei...
e silêncio, um silêncio que era uma suave brisa de primavera
- mas afinal o que sei eu?
a pergunta que era apenas sua agora dos dois, a pergunta derradeira, sombria, a deixar-se levar pelo vento, deixando-os ainda mais sós, naquele fim de manhã que parecia não poder nunca transformar-se em futuro...
- mas afinal o que sei eu, eu que a todos chamam de sábio?
- o mestre é sábio não por tudo saber mas sim por tanto ensinar!
e saiu, descendo a colina em direcção ao riacho que corria cristalino, transportando consigo a inabalável força das coisas que têm de ser. Mais tarde, quando passou nesse mesmo local, voltou a avistar o seu mestre, na mesma debaixo do velho carvalho, mas agora menos curvado e olhando o horizonte como se tudo o que visse fosse pouco ao pé de tudo o que podia ainda alcançar. Nesse instante, sorriu para dentro e caminhou até casa.