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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

30
Jul08

Flashes.

Marco

À entrada havia um tremendo par de chifres mesmo por cima da porta que se abria com dificuldade, como que pedindo certezas absolutas antes de qualquer gesto. O tempo ali era pouco iluminado. Johnny Cash flutuando por cima das pessoas que nunca antes tinham sido tanto elas próprias. Ali, não lhes restava mais nada. Elas e elas. O balcão feito de madeira gasta e riscada suporta-lhes os cotovelos e os copos com que apagam as chamas que lhes fustigam a alma. Histórias avulso. Vidas longínquas a cruzarem-se naquele ínfimo ponto de coisa nenhuma, apenas elas e elas e mais nada, nem passado, nem futuro. Elas.

Na rua, havia o frio a ocupar o espaço deixado disponível pelos prédios e pelos carros e pelas pessoas que corriam a desviar-se dele. Havia uma noite que apressava todos os processos, como se esta tivesse cara de monstro ou fizesse mal à saúde, provocando a pressa, roubando tempo ao tempo. Um tempo de segunda. Menos valioso. Menos tempo. Feito para passar rápido, de fugida, num instante. Sobrava o frio, na forma de vento, derrapando nas esquinas, fazendo rodopiar as folhas desistentes, conformadas com a distância crescente entre elas mortas e elas vivas, alegres, no topo de uma qualquer árvore esquecida.

Da janela que nem é janela mas antes um ecrã gigante, o mundo ganha uma dimensão silenciosa que o torna estranhamente cinematográfico. Como se as pessoas fossem personagens e os seus movimentos tudo menos espontâneos, sendo cada gesto um pedaço do guião, cada movimento um acto ensaiado com minúcia, todos os dias, à mesma hora, no mesmo local. Da janela, ou melhor, no ecrã, o mundo é um local distante e existem personagens que se representam a si mesmas enquanto não passa a noite, que é tempo roubado ao tempo, do lado de fora da porta que se abria com dificuldade, como que pedindo certezas absolutas antes de qualquer gesto. 

25
Jul08

O Brasil.

Marco

Sei que a primeira sensação foi a de um escuro já esquecido, conformado com a sua condição, tremendo, esmagador, capaz de todos os segredos sem quem ninguém sequer desconfiasse, um escuro apenas contrariado em ocasiões muito especiais, fosse um carro sem direcção perdido na noite, fosse uma casa que de casa apenas o conceito, desafiando sempre os limites da pobreza e ainda assim repleta de pessoas habituadas ao nada como o tudo e até felizes por isso, tranquilas de tão distantes das exigências a que os sonhos sempre obrigam, transbordando coisas coisas coisas e mais coisas.

Não ter nada foi pela primeira vez verdade à frente dos meus olhos e aqui o nada escreve-se com todas as letras de todos os alfabetos e significa um vazio capaz de magoar, capaz de ferir, um vazio combatido apenas a sorrisos que nunca entendi muito bem se de simpatia, se de ironia perante o destino dos dias iguais aos outros num cenário onde o paraíso parece sempre tão próximo, tão palpável, tão real, a escapar-lhes como areia por entre os dedos, a fugir-lhes troçando deles em todos os minutos, dando sempre a ideia de estar reservado em exclusivo para nós, visitantes do regresso anunciado.

E regressei. Regressei ao Brasil que coube dentro das fotografias e que se pinta de um verde opaco, onde existem as praias encantadas, as pessoas inesquecíveis, os momentos que agora se repetem na minha memória saudosa, as aventuras, os lugares da perfeição, a vida em estado bruto. E revejo o pequeno Bartunis (nome inventado por mim), e encanto-me com o brilho daqueles olhos inocentes, fundos como a noite e apenas desejo que um dia possa realizar o sonho de ser o Cristiano Ronaldo e que a felicidade dele possa ser bem maior do que receber um ou dois reais em troca de um simples pacote de cajus.

18
Jul08

Voltar.

Marco

E então as pessoas decidiram voltar a apaixonar-se como se essa fosse uma decisão igual a escovar os dentes ou ver se no correio hoje correio, mas mais do que isso, decidiram apostar nessa felicidade que nunca para sempre apesar de sempre para sempre e eu nisto de apenas ficar atento, nisto de molhar apenas o pé em vez de mergulhar a fundo, com medo talvez das ondas, das marés que nos puxam para dentro sem aviso, preferindo a beira mar onde a areia se alisa em vez de um grito desesperado por ajuda até que alguém corra a salvar-me do afogamento mais do que certo.

Ainda assim gabo-lhes a paciência, gabo-lhes acima de tudo a capacidade quase ingénua de acreditar, repetindo as caminhadas do passado na bonita esperança que um novo destino, o tal que se apaga lentamente com o passar dos dias fazendo lembrar os desenhos imperfeitos sumidos por uma borracha que tudo leva e nisto eles caminhando, reconhecendo lugares, lembrando gestos de outros passeios, vivendo de novo aquilo que já uma vez foi, aproveitando esses instantes numa ingenuidade tão forçada quanto enganadora, sempre na secreta esperança que desta vez chegarão ao outro lado.

Se calhar e apenas se calhar nunca se afogaram, se calhar nadam com a calma dos campeões em braçadas calmas, seguras e sabem sempre o momento de voltar a terra, antes das ondas e das marés, onde se enxugam às tuas toalhas deitando-se depois ao sol à espera que a vontade de novo banho apareça para se decidirem, tal como decidem escovar os dentes ou ver se no correio naquele dia correio. Nisto levantam-se alegres, aproximam-se do mar, passam por mim, e não demoram quase nada a mergulhar com toda a convicção deste mundo enquanto eu vou molhando os pés, cheio de dúvidas.