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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

17
Mar08

Viagens na minha terra.

Marco
A estrada faz-se estreita, em passos também eles estreitos, atentos a carros desatentos, apressados à passagem, sem tempo para se deterem com pormenores como o cheiro a interior, a poema, cheiro a tempo passado, cheiro a memórias, pormenores como as casas debruçadas sobre o caminho, espreitando-o curiosas, casas já velhas onde pessoas já velhas, desenhadas em traços rugosos a carvão pouco afiado, esperam a generosidade dos minutos com sorrisos verdadeiros, talvez já sabendo que as verdades existem debaixo das ilusões e talvez por isso sorriam à minha passagem, decifrando cada pedacinho do meu entusiasmo.

Ao balcão do Frei Gaitinhas debruçam-se cinco homens pintados de pingos de tinta e riem e falam alto e bebem cervejas e comem amendoins e são felizes por instantes e nada mais lhes interessa, nem o trabalho, nem os problemas, nem as mulheres, nem o cansaço, nem a desilusão que existe debaixo da verdade que existe debaixo da ilusão. Aquele é o seu momento e eu admiro-os por isso. Faço por me demorar, apetece-me testemunhar aquele instante, aparece-me rir com eles, apetece-me reduzir-me à simplicidade, esquecer tudo, encher-me de pingos pintados de tinta e ficar ali até alguém me desenhe de sorriso aberto em carvão pouco afiado.

Em vez disso, regresso – gosto tanto da palavra regresso e da ideia de voltar a um lugar a uma situação uma vivência poder voltar a ser, e aproveito cada passo estreito para sentir por debaixo dos meus pés o peso impossível de um destino que me quis aqui ao mesmo tempo que lanço porquês que se me escapam, não entendendo determinadas lógicas tão estreitas como esta estrada por onde caminho e por onde escorrem agora os meus dias, límpidos como esta imensidão, generosos por me ensinarem que na vida nem tudo tem de ser elaborado ou complicado, pode ser apenas como caminhar atento às coisas belas que nos rodeiam e que fingimos não ver.
07
Mar08

As respostas que desconheço.

Marco
Às vezes pergunto-me o que será de ti não com saudade ou coisa parecida, mas pergunto-me porque não sou pessoa de esquecer completamente e nesses instantes imagino que tudo bem, espero que tudo bem, as coisinhas a correr como imaginaste, um dia depois do outro e do outro e do outro ao mesmo tempo que sorrio e me olho, não encontrando qualquer traço do que fui, não me reconhecendo nessa figura do passado, armada em mim mesmo, outro eu que deixou de existir, se extinguiu, desfeito na corrente do tempo que tudo leva, tudo apaga.

Então penso: tanta gente a desistir de viver. Tanta gente satisfeita dentro do vazio completo, dentro da ausência, dentro do nada, ou se calhar conformada com isso, ou se calhar derrotada, ou se calhar nada disto e apenas distraída de tudo, esquecida da palavra possibilidade no plural, não sei, não conheço todas as respostas do mundo, limito-me a lutar contra os pensamentos que me invadem a toda a hora sendo que este me visita repetidamente dentro de todas as horas: tanta gente a desistir de viver, a sobreviver aos dias, de braços caídos, inertes.

Palavra que às vezes me pergunto o que será de ti, e de ti, e também de ti, não com saudade ou coisa parecida, mais curiosidade inevitável já que não sou pessoa de esquecer completamente embora me fascine cada vez mais a quantidade de verde que me brinda todas as manhãs ao abrir as portadas e me dê um gozo cada vez maior ligar uma música que faça de banda sonora à nitidez dos minutos e deixar-me levar por ela, simplesmente. Afinal de contas, não conheço nem tenho de conhecer todas as respostas do mundo. Apenas as minhas.