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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

28
Fev08

Um inesperado adeus.

Marco
Nunca foi suposto eu vir a conhecer o senhor Cabral Ferreira visto que ele presidente de um clube de futebol lá para os lados de Belém – onde o Tejo se torna belo para além de todas as palavras que tento lembrar neste preciso momento, e eu um longínquo anónimo, um alguém que ninguém, preocupado com outros afazeres bem distantes das famosas quatro linhas onde tantas emoções se despertam e fluem ao sabor de uma paixão a que muitos sucumbem mas que poucos conseguem explicar através da racionalidade que pelos vistos, nada quer ter a ver com o desporto rei.

Nunca foi suposto eu vir a conhecer o senhor Cabral Ferreira mas um desses afazeres obrigou-me a aproximar-me das famosas quatro linhas e Belém – onde os fins de tarde solarengos se tornam belos para além de todas as palavras que tento lembrar neste preciso momento, foi o local escolhido e foi onde ele, simpaticamente me estendeu a frágil mão, interessando-se por saber quem éramos e o que fazíamos, mesmo sabendo que o iria esquecer de imediato visto que a sua vida a escorregar-lhe, a consumir-lhe as últimas energias, a apagá-lo aos poucos como um desenho a sumir-se, a tornar-se sombra até que nada.

Nunca foi suposto eu vir a conhecer o senhor Cabral Ferreira e na verdade, nem sequer o reconheci quando se aproximou de mim, guiado pela sua bengala de madeira, metido dentro de um corpo que o traiu aos cinquenta e seis anos de idade mas do qual julgo que nunca se queixou a julgar pela frase “bem, deixa-me lá ir buscar as minhas coisas, que este deve ser o último jogo de Belenenses que vejo” e lá foi ele, em passos curtos e dolorosos, fumando um cigarro que já nem mal lhe conseguiu fazer, a caminho do seu gabinete, a caminho do seu destino. Apesar de nunca ter sido suposto, gostei muito de o conhecer e doeu-me saber que partiu.
19
Fev08

O varredor.

Marco
Levantava-se ainda nos últimos minutos da noite, despidos de calor, alegria, entusiasmo e deixava que os movimentos o levassem como o leito de um rio, deslizando lentamente em cima do chão, observando-se a agir já sem admiração, esquecido do que fora um dia, aceitando apenas e a casa de banho, gelada, a farda, repetida, o rosto, inerte, a porta, aberta, as escadas, escuras, a rua, deserta, a paragem, abandonada, o autocarro, finalmente, os bons dias, do costume, o acento, lá atrás e a cidade, deserta, a dormir, salpicada de luzes vermelhas que poderiam muito bem ser apenas os seus pensamentos, perdidos, fugazes, parando e arrancando para sempre.

A sua vassoura era ainda à antiga, longa, de madeira e terminada num molho de ramos toscamente amanhados, rijos, ásperos, velhos, capazes de resistir às superfícies rugosas, aos objectos imprevistos, capazes de varrer as horas, varrer as manhãs, varrer o lixo, varrer as memórias por debaixo dos seus sapatos gastos de passos perdidos, vagos, comandados à distância, a partir de todos os lugares que teimosamente habitava, lugares que nem sempre lugares, instantes, pensamentos, ideias, flashes sucessivos, luzes vermelhas na noite, ora acesas, ora apagadas, perdidas e a vassoura dançando cada compasso, cabisbaixa, automática, triste.

O varredor já acreditara. Já sonhara impossibilidades, já idealizara possibilidades. Já fora um dia, feliz dentro dos seus sonhos. Já se levantara de sorriso rasgado e já comandara todos os seus movimentos, moldando-os à sua vontade férrea de desenhar-se em tons vivos, numa tela interminável, permanente. O varredor já acreditara. O varredor já acreditara. Já gastara o seu tempo em lugares longínquos, em gestos definitivos, já vivera um dia dentro de cada dia, uma hora dentro de cada hora, um minuto dentro de cada minuto. Já sentira o intenso travo da plenitude. O varredor já acreditara. O varredor já acreditara. O varredor já acreditara...
12
Fev08

Na mouche.

Marco
Tenho medo que a liberdade se torne um vício. Esta frase que não minha, se calhar não de ninguém porque as frases não nos pertencem, não são de ninguém, apenas temos a sorte de as descobrir visto que elas lá, desde sempre, flutuando se calhar como brisas frescas ou caindo como as gotas de chuva em manhãs tristes de inverno, nada é de ninguém, passamos pelas coisas, pelas pessoas, são-nos no limite emprestadas, por uns tempos e sempre por uns tempos que logo acabam, um dia, um mês, um ano, uma vida depois do início dos primeiros momentos em que tudo de novo como se renascer fosse esse mesmo instante.

Esta frase a acertar-me em cheio sem que eu minimamente ágil ou rápido, parecendo mais aqueles animais encadeados por uma luz forte no meio da noite escura, espantado, inerte, incapaz de me desenvencilhar das palavras, como se dentro de uma teia, feito prisioneiro do tamanho de todos os significados, tão maiores do que o meu tamanho, tão mais profundos do que todos os mares, escorregadios, apressados, ciclónicos, fugidios e eu a rodopiar rodopiar, no meio das palavras tenho medo que a liberdade se torne um vício, atingido na mouche por tudo aquilo que não consigo alcançar, nesta luta sempre perdida, muito para além de qualquer entendimento.

Penso: quantas vezes a liberdade não será ela mesma uma prisão, uma amarra, um pretexto para que coisa nenhuma que é como quem diz dor, sofrimento, medo, risco, falhanço, derrota, não sei, penso e não penso, é como digo, tudo isto me passa pela cabeça mas são pensamentos e pensamentos apenas que se calhar também não me pertencem, são-me emprestados pela brisa que corre na rua è velocidade do fim de tarde, à medida a que luz se deita e permite que a noite me diga bom dia e realce os máximos dos carros que tanta confusão me fazem, parecendo às vezes palavras tão indecifráveis como tenho medo que a liberdade se torne um vício.
07
Fev08

Naquele olhar.

Marco
Vi as azedas naquela indecisão verde amarela a pintar os campos de limonada e não vi nada disso, vi muito mais, vi o Estoril, vi o caminho para a natação, vi o fim de tarde, vi um miúdo pequeno a prová-las e a acreditar que as grandes escolhas da vida seriam entre aquele travo a coisa nenhuma e o doce dos pinhões conquistados ao mundo e quebrados à pedrada com a arte dos ourives. Vi que a primavera em vez do inverno, vi que as memórias vivas, presentes, vi e não vi nada disso, vi as azedas naquela indecisão verde amarela a pintar os campos de limonada.

Vi a feira da ladra naqueles fins de manhã em que o sol parece pintar os recantos de magia e não vi nada disso, vi muito mais, vi os rostos do desencanto, vi passos errantes, descabidos, pessoas que restam de si mesmas, gastas de vida, vi isso e vi também que ia sozinho, vi que ia sem o Barradas e sem o Barradas a feira da ladra não é bem igual, é também um resto de si mesma, apenas um conjunto de sítios, a resistirem a um tempo que os consome em segredo. Vi e não vi nada disso, vi a feira ladra naqueles fins de manhã em que o sol parece pintar os recantos de magia.

Vi a palavra incerteza escrita em cada gesto e nas suas letras vi outras palavras, todas as palavras que disse, que escrevi, que pensei, que calei, que sonhei, vi e não vi nada disso, vi apenas que deixaria de ver, vi adeus em cada fragmento de instante que se desfazia, vi silêncio, vi desilusão, vi o tempo que nunca foi, que nunca será e nesse momento pensei que talvez seja esse o verdadeiro sabor das azedas, um travo a coisa nenhuma que pinta os campos de limonada e pensei que o sabor do vazio se parece muito com aquilo que sinto, sempre que aos sábados de manhã o Barradas não está comigo a ver a magia pintada pelo sol.
06
Fev08

Querer sem querer.

Marco
Não sei o que quero
Ou melhor, sei que quero
Só não sei o que quero
Quero às vezes querer
E querer o que não quero
Quero tudo o que não sou
Não quero nada por onde vou
Quero tudo e não quero nada
Quero hoje o que não quero amanhã
Quero ver o que não vejo
Quero tudo o que não sou
Quero o impossível que me foge
Quero a ideia que me consome
Quero aquilo que me escapa
Sei que quero
Quero tudo
Quero muito
Quero tanto que me espanto
Por não saber o que quero
Sei apenas que quero
E de tanto querer
Não quero nem saber
Se me querem por assim tanto querer.
04
Fev08

A meio das ideias.

Marco
As vozes juntam-se numa afinação que tenta envolver-me como envolvem os abraços mais apertados, aqueles onde o número dois se transforma em número um enquanto eu me afasto dentro do meu silêncio mal disfarçado com um sorriso desenhado à pressa e fujo para longe, para esse lugar onde nenhuma pergunta, nenhuma pessoa, apenas eu os pensamentos que me tomam de assalto, fazendo contas a uma idade que parece querer enganar-me, na qual nem me reconheço, tentando ajustar-me a ela tal como faço em frente ao espelho sempre que por obrigação tenho lutar contra o nó de uma gravata.

Lido mal com nós de gravata, cortam-me o ar, sufocam-me, prendem-me, disfarçam-me do que não sou e por isso evito-os da mesma maneira que evito as contas que isto da matemática nunca foi o meu forte, sempre abominei raízes quadradas, nunca entendi trigonometrias e sinceramente, já não acredito em fórmulas resolventes por isso toca de acordar e regressar às vozes que se afinam e me abraçam, sorrisos enormes de verdade, olhares brilhantes que me fazem lembrar jóias preciosas de valor impossível onde me fixo e acredito que sou feliz por completo, sem que nada nem ninguém me possa convencer do contrário.

Penso de repente: sou um pedaço de texto por acabar. Sou a luta entre as frases e as ideias, sou todos os erros já escritos e sou o resto da folha branca, sou aquilo que quiser escrever, que conseguir escrever, sou as palavras todas que conheço, sou aquilo que fizer delas, sou estes nomes que me rodeiam, sou a voz deles que me envolve, sou um que é dois, que são todos, sou simplesmente assim, sou eu agora, aqui a fazer contas de cabeça enquanto faço e desfaço este nó que é um grande trinta e um, querendo enganar-me, onde nem me reconheço e por isso peço desculpa, mas vou desistir de pensar muito mais no que escrever e simplesmente, viver.