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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

28
Fev07

O pequeno aprendiz...

Marco
O pequeno aprendiz treinava-se todos os dias com o mesmo afinco. Queria conhecer os segredos da transcendência, aquilo que está para além do olhar e do próprio corpo. Recusava-se a acreditar em limites impostos e por isso, fazia tudo o que podia para vencer os seus. O velho mestre, observava-o. Em silêncio. Gostava daquele inconformismo e ao mesmo tempo reconhecia-lhe um potencial que não querida deixar de explorar. Por isso, exigia-lhe mais. Sempre mais.

Num desses treinos em que o aprendiz nada parecia evoluir, perguntou ao seu mestre, o que é a transcendência, quando é que lá vou chegar? Tinha pressa, queria resultados para todo o esforço de todos os dias. O seu mestre fingiu ignorar a pergunta, optando por corrigi-lo aqui e ali. O que é a transcendência, quando é que lá vou chegar? Repetiu o aprendiz cada vez mais impaciente. O seu mestre nada, como um intransponível muro de silencio.

Os anos passaram, o aprendiz cresceu e com isso, foi-se habituando à ideia de que a vida nem sempre se cinge só ao caminho para a transcendência. Que aquilo que está para além do olhar e do próprio corpo nem sempre é o mais importante. Habituou-se a aceitar-se como o resultado lógico de todas as suas opções e a preocupar-se mais com a sabedoria de bem escolher. No dia em que conseguiu viver em paz com tudo isso, o seu mestre chamou-o e disse-lhe: a sabedora, é a maior de todas as transcendências. E tu, chegaste lá.
27
Fev07

Vai, voa depressa!

Marco
Penso em joaninhas. Não sei porquê, de repente lembrei-me delas. São raras de aparecer e ao mesmo tempo tão bonitas. Aquele minúsculo ser esvoaçante a caminhar na minha pele, capaz de me derreter emoções congeladas no tempo, transportando-me para a época de todos os fascínios. O seu corpo frágil, vermelho de pintas negras, saído de um desenho de criança, logo transformado numa obra de engenharia, a voar mundo fora, sem rumo, dentro dos meus pensamentos.

Impossível não gostar delas. Quase que nos sorriem. Sorriem mesmo. Dizem que nos trazem boas notícias. Acho que me lembrei delas porque as joaninhas andam desaparecidas do mundo. O que será que se passa com elas? Nunca mais ninguém as viu. Será que se zangaram connosco, sempre tão mais ocupados com outras coisas que nos fazem ficar de cara feia de tão séria? Será que de se sentirem tão esquecidas, resolveram esquecer-se de nós? O que é feito das joaninhas?

Penso nelas neste instante. Sou capaz de imaginar uma a entrar-me pela janela e a pairar sobre mim, divertida, como que a desafiar-me. Tento segurá-la e não consigo. Espero que poise. Ela voa e voa até que por fim, resolve aterrar na ponta do meu nariz. Parece querer falar comigo ao mesmo tempo que me faz entortar os olhos. Que imagem mais cómica. Não sei o que me trazes, mas antes de tudo, quero pedir-te um favor: se eu te der a morada de uma pessoa vais lá levar uma boa notícia? Vais? Então vá, toma e voa rápido! Rápido!!
26
Fev07

Depois de regressar.

Marco
O mundo cabe todo naquelas ruas. Pessoas de todas as raças e credos, apressadas, lutando pela oportunidade da sua vida. Passam por mim sem me conhecerem. Admiro-as e logo as perco de vista, substituindo-as por outras e outras e outras. Gostava de as fotografar a todas e imaginar-lhes a sua história feita de muita força de vontade e convicção. Para me servirem de exemplo nos momentos em que o corpo me pesa e em que nada me serve de consolo.

Há uma magia muito particular que me encanta em Londres. Julgo que nem eu a conheço em pormenor, mas a verdade é que me sinto envolvido por ela sempre que lá vou. Talvez seja o extravasar de uns horizontes sempre tão encolhidos pela rendição à rotina. A capacidade de ir mais alem, de fazer bem feito. Existe tanto para lá do que vemos todos os dias, nos mesmo sítios, às mesmas horas. A prová-lo, todas as pessoas que quis fotografar e não consegui.

Pessoas que podem até não conseguir. Que provavelmente chegam de noite a casa, cansadas, e choram cada gota de suor na maior das solidões. Que muitas vezes se olham ao espelho e perguntam a si mesmo se valerá a pena tamanho esforço. Mas pessoas que tentam, que dão o melhor de si numa terra que também dá o melhor de si a todos os que lá estão. Que se entrega às pessoas em vez de as repelir. E as pessoas acabam por gostar disso. Eu, pelo menos, gosto.
13
Fev07

Eu e o telefone.

Marco
O telefone deve ter qualquer coisa – que desconheço, contra mim. Não deve ir com a minha cara ou então deve achar que o trato mal. Sei lá, que nunca o desligo, que o deixo cair vezes demais – não faço de propósito, que me esqueço dele, que o sobrecarrego de mensagens. Qualquer coisa é de certeza, sendo que me falta descobrir o quê. Não acho que seja mau dono de todo, nunca o deixo ficar sem bateria ou sem dinheiro. Caramba, devia sentir-se importante!

Mas não. Nada disso. Bem pelo contrário. Volta e meia, sem qualquer aviso prévio, decide pura e simplesmente não tocar. Nada. Como se isso fosse possível! É capaz de se aguentar assim uma noite inteira. Ali caladinho, em cima da mesa de cabeceira, nem toque de chamada, nem toque de sms. Apenas um enorme silêncio, que continuo a não entender. Pior, deixa-me dormir para depois, já pela manhã, me despertar com o seu som estridente. Gozão. Sou capaz de jurar que lhe descortino um sorriso irónico.

Hoje é uma dessas noites. Olho para ele e nada. Nem um toquezinho. Nada. Resta-me respeitar a sua vontade e ter esperança que só não toca porque de facto não pode. Deve ter com toda a certeza uma razão lógica e por isso nem me vou chatear com ele. Vou deixá-lo estar descansado, na sua. Mas entretanto a ver se aproveito para dormir cedo para amanhã de manhã ser eu o primeiro a acordar. Aqui entre nós, ele nem sonha o susto que lhe vou pregar. Amanhã, sou eu que o desperto!
12
Fev07

Voltámos a ser putos.

Marco
O tempo tem destas coisas, volta e meia apanha-nos distraídos e decide passar a correr. Nunca percebi muito bem o porquê de ele fazer isso, nem me parece que ganhe alguma coisa com isso, mas estou seguro que terá as suas razões. Não sei é quais são. A verdade é que existem dias, aparentemente iguais a todos os outros, em que de repente chocamos de caras contra ele e em que percebemos como é veloz. Ontem, para mim, foi um desses dias.

Quando a noite me impingia a ideia de ir dormir, eis que me surge à frente, no computador, uma personagem com quem vivi algumas das mais inacreditáveis histórias da minha vida. Seguramente que não vejo o Alexandre (Chris Mulin entre nós) há uns 6 anos. Mas é preciso recuar cerca de 15 para nos encontrar, putos, a fazer avarias por tudo quanto era lado. Coisas do arco da velha. Episódios absolutamente insólitos capazes de me fazer corar nos dias de hoje.

Era o tempo dos Verões eternos. Da descoberta. Da rebeldia. Da aventura. Ontem voltámos a ser putos, voltámos aos penaltis no Joaquim da Imperial onde havia baratas atrás de um quadro do Papa, voltámos às bebedeiras de Koriak na praia do Pisão, voltámos ao autocarro do Sai-de-Gatas, voltámos à guerra de feijoada na casa do Hugo, voltámos à mítica festa de anos da Ana Sofia, voltámos ao WC da Formosa... voltámos a rir com episódios inesquecíveis que tempo nenhum pode apagar.

Por mais rápido que corra.
09
Fev07

O tempo em bolas de sabão.

Marco
Olhava-as com aquele fascínio infantil, a subirem incertas, trémulas, frágeis até que puf e nada mais. Novo sopro e nova vaga trepando o ar do seu quarto, brilhantes, quase coloridas, de certeza divertidas. Primeiro apressadas, depois mais lentas até que novamente puf e nada mais. Passava assim minutos feitos horas. Não gostava que o interrompessem, muito menos que lhes pusessem termo mais rapidamente. Queria observá-las durante todos os segundos em que viviam.

O tempo passou e ele nunca soube o segredo das bolas de sabão. Inclusivamente, esqueceu-se delas durante anos, mais preocupado em crescer e em viver a sua vida. Assim, os frasquinhos cilíndricos ficaram guardados, acumulando o pó dos anos que aconteceram. Alguns deles, tinham um pequeno jogo de esferazinhas metalizadas na sua tampa, com o qual se entretinha sempre que as bolas de sabão resolviam acabar. Sem que ele percebesse porquê.

Hoje, na hora de se escrever, subitamente, lembrou-se delas. Quase que as viu de novo a subirem, de novo incertas, de novo trémulas, de novo frágeis até que de novo puf e nada mais. Nesse momento, lembrou-se do tempo em que se sente verdadeiramente feliz. Lembrou-se de um sorriso com covinhas. Pequenos instantes mascarados de bolas de sabão, apressadas, brilhantes, divertidas, até que puf e nada mais. Cansado, desejou muito conhecer o seu segredo, farto que está das esferazinhas metalizadas.
08
Fev07

Ninguém deu por isso.

Marco
De onde vinha tal “fascínio” era algo a que ninguém conseguia responder com exactidão. Aliás, as pessoas nem sequer se detinham a pensar nisso. Davam-na como um dado adquirido e pronto, cada uma à sua maneira puxava a sua parte, exigindo, querendo, cobrando cada pedaço de si, como se propriedade sua. Tão somente sua. Não interessava a hora, não interessava o dia, não interessava quase nada. Apenas essa parte ou quem sabe o todo, já, agora!

As noites, essas, eram longas. Pesadas. Eternas. Horas sucessivas em que o sono leve de evaporava dando lugar a uma insónia persistente, implacável, também ela a exigir a sua atenção sem sequer reparar no mal que lhe fazia. Até que por fim, de novo o sono leve em horas fugidias, cruéis na forma como lhe fugiam e claro, logo de seguida a manhã. Mais uma manhã de rotina, de puxões, aqui, ali, acolá, a toda a hora.

Nos seus olhos era visível um cansaço pesado, esmagador. Tão visível e no entanto tão despercebido às pessoas, focadas em si mesmas e nas suas exigências. Puxando apenas a sua parte, voltando a exigir, voltando a querer. O seu sorriso, que parecia ser inesgotável, foi-se fechando, devagar, devagar. A sua energia foi desaparecendo até que, numa noite de chuva envergonhada, o seu corpo cedeu. Sentou-se prostrada, baixou a cabeça e chorou.

Ninguém deu por isso.
07
Fev07

Olhares.

Marco
Imagens turvas. Um olhar turvo. Desfocado. A visão de repente mais curta, mais escassa. Um olhar menor, confuso. A realidade toda ela alterada, vista hoje de outra forma. Luzes inexistentes a brilhar, dentro de um olhar que se perde aos poucos, pedindo descanso, pedindo escuridão. Um olhar trémulo, já frágil, tão frágil. Perdido numa noite calada, sem sons que a pintem, que a polvilhem de vida. Uma noite em que o mundo por certo, decidiu parar.

Fora destas paredes devem haver pessoas. Imagino-as nas suas vidas, dentro das paredes que as separam de mim. Fechadas nos seus mundos, também eles parados neste instante. Milhões de mundos parados. Desconhecem-me. Não sonham o meu olhar turvo, repleto de luzes. Nem sequer imaginam estas palavras que lhes dedico a saírem-me agora sem qualquer travão. Apenas existem viradas para si mesmas, dentro de sim mesmas.

Volto ao meu mundo e logo me ausento para longe. Paro no Alentejo, no lugar de Porto Covo. É este o som que me envolve. As imagens, essas, são mais antigas. Eu era novo, muito novo e sonhava ser rei dos matraquilhos. Queria fazer castelos na areia e no fim do dia tomar banho numa cascata que existia na praia. Está fresca a água que me escorre pelo espírito. Limpa-me o sal do mar, deixa-me como novo, tirando as luzes que se me acendem dentro dos olhos, turvando-me todas as imagens. Nesta noite.
06
Fev07

No fim de hoje.

Marco
Será que já não é tarde demais para escrever um texto que a esta hora já nem texto, apenas palavras soltas, sem sentido, sem corpo, apenas palavras à desgarrada, à pressa, para preencher este vazio provocado por mim mesmo, um vazio feito de ausência, feito de distancia, de horas preenchidas, escorregadias, fugindo-me por entre os dedos sem que eu nada tenha podido fazer para as segurar, aqui, perto de mim.

Sim, talvez seja tarde para pegar num punhado de letras e com elas dizer aquilo que calei durante todo o dia, aquilo que escondi, que fiz não acontecer, que transformei num muro de silêncio, um bloco intransponível, rígido, opaco, agora enorme, tão grande que capaz de me cercar, de me isolar, deixando-me só, cá dentro, eu e as minhas palavras não ditas e agora aqui, escritas, à pressa, numa tentativa vã de dizer aquilo que já não pode ser ouvido.

Sei que agora poderia até gritar, jogar todas estas palavras fora ou espalhá-las qual puzzle, encaixá-las, formar um todo todo ele mensagem, pertinente, cheio, talvez um poema, talvez uma história carregada de sonhos realizados, talvez uma memória feliz de mim mesmo, talvez tanta coisa que o tempo ou a falta dele me levou, deixando-me apenas estes escassos minutos para tentar dizer aquilo que durante todo o dia tive de calar. Mas agora, sim agora, é tarde demais.
05
Fev07

Trinta anos depois...

Marco
Sou o que resta de mim. Um pedaço de história, de memória. Sou o resultado de todos estes dias em que vivi. A soma das partes. O resultado final. Aqui agora. Diferente amanhã. Mas agora e agora, eu. Trinta anos depois. Depois de nascer, de crescer, de experimentar viver. Ganhar, perder. Sonhar, acordar. Apostar, fracassar. Querer, não ter. Ser. Existem fragmentos de mim espalhados por aí, entregues a pessoas, gravados em sítios ou perdidos a um canto.

O mundo desgasta-me. Leva-me aos poucos assim como o mar faz com as rochas. Rouba-lhes fragmentos. Molda-lhes a forma. Como uma escultura. Uma escultura de mim mesmo, feita por mim e por todos. Uma peça sempre inacabada até que para sempre acabada. Sempre a meio de um caminho feito do que fui e do que quero ser. Do que tive e do que quero ter. Do que vivi e do que quero viver. Sempre a meio de tudo entre o ontem e o amanhã.

Olho-me no espelho e vejo-me reflectido. Aparentemente sempre igual e no entanto tão diferente de todas as fotografias que me suspenderam no tempo. Em ínfimos instantes de tempo tornados eternos. Olho-me e consigo ver a meu lado, todas as pessoas que sei que estão comigo. Também elas reflectidas já não no espelho, mas em todos os meus gestos. Reflectidas na minha essência como pessoa. É nelas que penso neste momento.

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