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Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

31
Ago06

Hoje, pensando melhor...

Marco
Em miúdo encarava-os com desconfiança. Julgo que me assustavam. Não sei se era a sua imponência, se a minha preguiça. O que sei é que lhes virava costas, fingindo não existirem ou pelo menos fingindo não os conhecer. Dissessem eles o que dissessem, inventassem as histórias que inventassem, a mim, não me convenciam e portanto de mim, nem sequer um olhar. Nada.

Para mim, um livro era um absurdo de páginas rigorosamente iguais. Não podia haver diferenças entre elas. Todas brancas, todas carregadas de palavras. Sempre as mesmas palavras, apenas numa ordem diferente. Por isso, música. Por isso, computador. Por isso, miúdas. Por isso, praia. Por isso, televisão. Por isso, futeboladas. Por isso, cinema. Por isso, tudo menos livros.

Hoje começo a desconfiar que me precipitei na minha avaliação infantil. Hoje os livros acompanham-me, contam-me histórias que desconheço. Fazem-me sair da minha vida para ir espreitar segredos, viver aventuras, beber inspiração. Sim, julgo que são eles os principais responsáveis por este espaço de mim mesmo. Hoje já não desconfio deles. Nem me assusto. Assim como espero não assustar ninguém.
30
Ago06

Atrasado, mas a tempo.

Marco
Hoje atrasei-me. A esta hora as letras já costumam estar todas organizadas, umas ao lado das outras, arrumadinhas no seu espaço, na sua frase, no seu parágrafo. Umas repetem-se e julgo mesmo que no fim de cada texto, competem entre si para ver qual aparece mais vezes. Contas feitas e contingências da nossa língua, as vogais acabam sempre por se consagrar como vencedoras.

A verdade é que hoje me atrasei. Não, não foi o despertador que adormeceu nem sequer eu que o ignorei. Nada disso. Eu até me portei bem, levantei-me a horas, arrumei as coisinhas, voei para o emprego onde luto arduamente com as ideias, para que venham giras, inovadoras, criativas, vendedoras. Onde luto contra timings que insistem em cercar-me, sufocando-me sufocando-me.

Eu hoje atrasei-me aqui mesmo. Ou melhor, não me atrasei. À mesma hora do costume fiz aquilo que sempre faço. Espalhei as letras todas, qual puzzle. Escolhi umas, depois outras e outras. Estas não, aquelas sim. Não, afinal não. Voltei a espalhar. Voltei a escolher. A espalhar. A escolher. E nada. Até que, de repente, um H, um O, um J, um E, espaço, um A, um T, um R, um A, um S, um E, um I, um -, um M, um E. Sim, pode ser por aqui. Vamos a isso.
29
Ago06

Para si, Vizinho.

Marco
O vizinho. Era assim que eu o conhecia. Não sei se alguma vez lhe cheguei a saber o verdadeiro nome. Ou até cheguei. Claro que cheguei. Mas para mim, era o vizinho. Nem sequer me imagino a chamar-lhe outra coisa. Não faria sentido. Não seria ele. Nem seria eu. Nem seriamos nós e por isso o vizinho, sempre o vizinho, para sempre o vizinho.

Lembro-me do vizinho desde sempre e sempre o mesmo sorriso, sempre o mesmo abraço, sempre o mesmo meu malandro!!, sempre o mesmo então hoje ganhamos ou não?! sempre o mesmo olho azul profundo qual oceano de bondade. Sempre como se fosse a primeira vez que me visse numa alegria sincera, pura, genuína e bela.

A partir de hoje, vou estranhar chegar e já não haver sorriso, nem abraço, nem meu malandro!! O olho azul profundo agora é de um céu limpo, intenso, majestoso. De um céu que ficou mais bonito. Bem mais bonito. Por isso, amanhã, que é já hoje, quando sair à rua vou olhar para cima, vou sorrir e vou responder, claro que vamos ganhar. Para dedicar a si, vizinho.

Até um dia. Até sempre.
28
Ago06

Up the Irons!

Marco
Hoje é dia 28 de Agosto. Um dia aparentemente normal se não fosse a data marcada para o lançamento do novo álbum dos Iron Maiden. Esse (aparente) simples facto, faz destas vinte e quatro horas um motivo de celebração, dada a importância que este colectivo tem na minha vida. Não é só mais uma banda, não é só mais um cd. Não, nada disso. É simplesmente, “a” banda. A instituição do heavy metal.

Esta relação nasceu há cerca de vinte anos. Andava eu na primeira classe quando o meu irmão resolveu aparecer com uma cassete da coisa mais à frente que se fazia na altura. Era quase proibido. Era a completa ruptura com os padrões estabelecidos. Era barulhento. Era melódico. Era rápido. Era radical. Era a sensação das sensações. Era Iron Maiden.

À cassete seguiram-se dois vinis, mais cassetes e já anos noventa a dentro, o primeiro cd.  Depois a colecção de todos os cd, de todas as raridades, os concertos. Verdadeiras celebrações de um culto. Explicar, é impossível. Só mesmo presenciando. A energia e a devoção. A comunhão absoluta. Hoje, escreve-se mais uma página desta história. Chama-se A Matter of Life and Death e eu sei, porque já ouvi, que é mais um clássico a não perder. Para finalizar, mais um grande Up the Irons!   
25
Ago06

... pelo mundo do talvez.

Marco
Imaginem uma voz. Uma voz que ora canta, ora sussurra. Uma voz que por si, enche qualquer canção de música. Uma voz que transborda música. Uma voz capaz de nos transportar pelo universo da simplicidade tornada perfeita. Uma voz tão única como desconhecida. Uma voz terrivelmente anónima. Uma voz mágica. Uma voz capaz de fazer sonhar. Uma voz de sonho. A voz de um sonho.

Imagino-a caminhando no meio de um bosque, cercada de verde. De repente, uma nova música, um novo universo. Uma melodia tão eterna. Como se existisse desde sempre. E logo a imagino vagueando pelo mundo. Procurando a próxima pessoa a quem cantar. Cantar baixinho baixinho ao ouvido. Imagino-a a sorrir ao fim de cada encantamento disfarçado de canção. Um sorriso cúmplice. E um adeus, porque senão, adeus magia.

Esta voz de que falo. Que ouço. Que escuto. Que me embala. Que me levita. Esta voz vive por aí. Não é preciso procurar. Não, nada disso. Basta um pouco de atenção. Julgo até que vive dentro de todos nós. Silêncio. Mais um pouco de silêncio. Sim. Lá está. Sim essa mesmo. Agora, é só deixá-la fluir. É só viajar com ela até ao infinito. Sem pressa. Esquecendo tudo. Há tempo que sobra para o real. São só uns minutos de magia. Com a Lisa Germano.


Basta viajar até aqui:
http://younggodrecords.com/audio/LisaGermano/InTheMaybeWorld/02-toomuchspace.mp3
24
Ago06

Era uma vez um texto vazio.

Marco
Era uma vez um escritor. Não propriamente um escritor daqueles de corpo e alma capazes de encher livros inteiros de palavras que parecem nunca repetir-se. Não, nada disso. Nem sequer daqueles escritores que parecem levitar por este mundo onde nada lhes diz respeito, nada lhes toca visto flutuarem ao sabor do seu génio, ao sabor das palavras que tão bem sabem arrumar.

Este escritor dedicava-se apenas a encher-se de palavras. Todas as noites, depois de todos os dias, de todas as horas, o mesmo ritual. Sentava-se, olhava-se e começava. Palavra atrás de palavra. Dando corpo a si mesmo. Escrevendo-se descrevendo-se. Criando verdadeiros eus que se tornavam em nós depois de lidos. Recriando-se a si próprio segundo ele próprio.

Certo dia, que era já noite, como todas as noites, esse escritor não escreveu. Não escreveu porque na hora em que se sentou e se olhou, não começou. Não conseguiu começar. Nessa noite, o vazio venceu-o. Foi mais forte. Foi de tal maneira forte, de tal maneira imponente, de tal maneira esmagador, que esse escritor resolveu homenageá-lo e escreveu-lhe este texto.
23
Ago06

Eu nem sequer estava à espera.

Marco
Eu nem sequer estava à espera. O relógio mandava-me embora, o cansaço fazia o mesmo, aliás por vezes desconfio que combinam todos os dias embora nem sempre à mesma hora. Depende. Mas a verdade é que aparecem sempre os dois a gritar-me aos ouvidos, com tanta insistência que acabam sempre por me levar a melhor.

Mas como dizia, eu nem sequer estava à espera. Só faltava mesmo arrumar as minhas coisas e partir com destino muito bem definido: a praia, o meu livro, a brisa de final de dia, o pôr do sol, o imenso laranja no céu, depois o rosa e a noite por fim. As estrelas no céu, sempre tão infinitas, sempre tão cheias de segredos para mim, só para mim, mas que insistem em não revelar. Por mais que olhe para elas.

De facto, eu nem sequer estava à espera. Mas de repente, um olá seguido de palavras à desgarrada numa conversa daquelas que nos marcam. De tão lúcidas. Tão profundas. Tão intensas. Daquelas conversas que deviam estar impressas nos frigoríficos para poderem ser lidas e lidas e lidas. Por todos. Para o bem de todos. Ter amigos assim é de facto precioso. Valeu Miguel. 
22
Ago06

E hoje, será que sim?

Marco
A verdade é que não te encontrei. Não sei se te escondeste, se decidiste fugir, se brincas apenas. Não sei se sou eu que sou distraído, sempre na lua, conversando com os meus botões. Não, eu não estava distraído. Quantas vezes olhei, voltei a olhar e sempre um tremendo nada. Opaco. Vazio. Um nada profundamente transparente. Bastava olhar para tudo ver. Tudo tudo, menos o tudo.

O verdadeiro tudo não o consegui ver. E caramba se me esforcei. Nada. Por isso te digo que a verdade é que não te encontrei. Por hoje, apenas distancia, apenas quilómetros, apenas uma cadeira, apenas uma secretária, apenas um monte de teclas, apenas memórias, apenas eu, apenas um enorme vazio capaz de encher todo o mundo de rigorosamente nada. Hoje teve menos cor, menos luz, menos alegria.

Hoje teve menos de tudo, é certo. Mas hoje está mesmo no fim, Já cheira a amanhã. Cheira a novo dia. Cheira a sol fresquinho. Cheira a incerteza. Cheira à rotina de sempre e que bem que cheira. Resta ver se te voltas a esconder, se voltas a fugir, se voltas a brincar. Será que amanhã também distancia, quilómetros, cadeira, secretária, monte de teclas, memórias, eu? Apenas eu. Num enorme vazio? Resta ver. De uma coisa fica sabendo, não, não sou só eu. Estamos todos à tua espera, cheios de saudades. Volta depressa.
21
Ago06

Os sítios das coisas.

Marco
Hoje vinha de norte, cheio de força, cheio de pressa, cheio de convicção, cheio de certezas, cheio de frio, cheio de vento. Vinha de norte e com ele voaram chapéus de sol, voaram grãos de areia atrás de grãos de areia atrás de grãos de areia, voaram vultos no mar ao sabor das ondas, voaram pensamentos e mais pensamentos. Voaram as certezas de ontem. Certezas absolutas que afinal não, não eram nada disso.

Não é fácil ordenar as ideias perante o tal que vem de norte, cheio de força, cheio de pressa, cheio de convicção, cheio de certeza, cheio de frio, cheio de vento. Não é fácil arrumá-las porque ele logo as desarruma. E assim, com a cabeça a mais parecer uma quarto de brinquedos de uma criança ao fim de um dia aniversário,  sento-me, puxo das letras que ainda consigo encontrar no meio de tanta confusão e desato a construir o que mais me parece ser castelo de lego, destinado a apenas breves minutos de lógica.

Minutos de lógica. Gosto disso. Breves minutos de lógica, em que consigo encontrar tudo arrumando nas gavetas da minha cabeça. Eu até sei os sítios das coisas. Sei onde as guardo e sei onde as procurar sempre que preciso. Talvez por isso, em certas situações, me custe tanto perceber o motivo de tanta desarrumação. Será que há festas de aniversário todos os dias, cheias de crianças a fazer questão de desarrumar sempre tudo? Mesmo aquelas que já me conhecem tão bem e os sítios das coisas?

O dia está a terminar e agora que já todos se foram embora, vou começar com as arrumações.
18
Ago06

A realidade (d)escrita.

Marco
Há uma espécie de realidade que me fascina no mundo das letras feitas palavras, feitas frases, textos. Letras transformadas em conteúdos, em certezas que podem nem sequer ser. Mas que por vontade de quem as escreve ganham uma existência eterna no papel e fugaz, quando lidas e imaginadas. Quando construídas nas mentes que as lêem.

No mundo do papel não existem impossíveis. Não existem barreiras nem fronteiras. Não existem condições nem obrigações. O talvez só mesmo se talvez. Pode navegar-se ao sabor da imaginação e rumar a qualquer destino. Pode correr-se. Pode amar-se. Amar no papel... pode um amor viver no papel? Pode um amor viver só das palavras ditas, só das palavras escritas?

Nesses oceanos de letras é possível o impossível. É real o irreal. É tudo o nada. Todos os nadas. Que não existem mas afinal sim, existem e são tudos em palavras. São realidades. A tal realidade que me fascina por poder existir, livre, selvagem, bruta, intensa. Tão intensa quanto a vontade de torná-la verdadeira que existe na mente de quem a escreve.

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