Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

Deep Silent Complete

"Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridiculas...e nas palavras mais belas... Transformo-me todo em palavras." - José Luís Peixoto

06
Jul10

Mãe Iria

Marco

- não me morras sem que te veja
peço se calhar muito e peço no entanto apenas isto, caramba peço apenas isto, eu hoje sou criança, faço anos, não sei quantos anos, isso agora não me interessa, o tempo foge-me a cada minuto e eu conto cada um dos que faltam até chegar perto de ti
- não me morras sem que te veja
quero agarrar a tua mão, quero sentir a tua pele tão gasta e no entanto tão bela, quero olhar-te nos olhos, ouvir a tua voz, quero sorrir-te antes de te chorar, é tudo o que te peço, não te esqueças, hoje sou criança outra vez e por isso o pai vai de burro até cascais vender o leite fresco enquanto tu cuidas da casa e cuidas de nós e cuidas da taberna e cuidas do que for preciso, é assim a vida nestes dias, faltam muitos anos para o futuro e no entanto o futuro aqui, agora, a querer-nos separar sem que um adeus, um até sempre, um olhar que eu possa guardar como o melhor de todos os presentes
- não me morras sem que te veja
deixa-me só acabar de dobrar estas roupas escuras, deixa-me só correr para o avião e cruzar meio mundo, eu prometo que não demoro, mãe, eu prometo que não demoro, são só mais umas horas, não muitas, por favor, deixa-me só encher a minha mala não de roupas escuras, mas da coragem que julgava não ter, deixa-me pensar nas palavras que mereces ouvir, deixa-me treinar o sorriso que mereces ver, já não demoro, mais uma hora e saio de casa, desta casa que encheste de vida com a tua vida, lembras-te? a casa está igual e no entanto nunca como dantes
- não me morras sem que te veja
peço se calhar muito e peço no entanto apenas isto, caramba peço apenas isto, eu hoje sou criança e não quero nem bolos, nem palmas, não quero nada, quero apenas que esta hora passe depressa para pegar na minha coragem e sair a correr, a voar, até chegar perto de ti, até pegar na tua mão tão gasta e no entanto tão bela, até olhar os teu olhos já cansados e nesse momento mágico poder dizer-te apenas um imenso obrigado por tudo o que foste para mim
- não me morras sem que te veja
prometo que já não demoro

09
Abr10

Anónimo.

Marco

Maquilho-me das mais belas palavras e por entre elas, o meu rosto escondido, a minha face oculta, sem nome, sem formas, sem defeitos nem virtudes, apenas as mais belas palavras que desta maneira sempre incompletas, deixando pistas sem destino, um mapa sem tesouro e a pergunta por certo a repetir-se insistentemente na tua cabeça - porque te escondes tu? sem que nenhuma resposta deste lado, apenas as sombras que decido mostrar, nada mais, prefiro que assim seja, sou do tamanho desta distância, sou as coisas todas que nos separam, sou tudo isso e nada aos teus olhos, zero, oculto-me de ti, por debaixo das mais belas palavras para que me leias sem ver, para que me sintas sem tocar e digo mais - é justo que assim seja, acrescento mesmo - pergunta-te, foi para isso que me levantei hoje tão cedo e me fixei frente ao espelho, a confrontar-me comigo mesmo, a olhar-me nos olhos, desenhando forma a forma como se um relojoeiro - tic tac tic tac, gosto da palavra minúcia, com a minúcia de um ourives, a arte de um escultor, dando forma à forma para que na tua cabeça - porque te escondes tu? sem que nenhuma resposta deste lado, apenas um leve perfume que não encontrarás nunca, o cheiro de todas as coisas que nos separam e um aroma a coisa alguma que tanto gozo me dá - confesso! este estranho poder de me evaporar e alastrar-me por entre os passos que dás, a julgares-te se calhar seguro, se calhar confiante, senhor de todas as coisas que te rodeiam e no entanto - porque te escondes tu? e eu desta até te respondo, não me escondo, eu sou assim, sou isto, sou uma forma de não existir, sou a impossibilidade, sou o que não é e porque assim sendo, nada sou, fico-me por aqui, maquilhando-me das mais belas palavras e por entre elas, uma secreta esperança, a esperança de que um dia, nem que por uma hora, um instante, uma fracção, tu, à minha frente, olhos nos olhos, sem perguntas, sem questões, sem nada, apenas tu e a tua certeza. Absoluta!

25
Mar10

Jorge, o homem orquestra.

Marco

Estou certo que a porta e a vassoura apenas para nos distrair e não só a porta e a vassoura, a camisa - religiosamente apertada até nos sítios onde nenhum botão, o pullover - com motivos de que a moda há muito se esqueceu, mas sobretudo a pele - não faço ideia como fez aquilo, a pele de um rosa quente cujo segredo apenas os avôs, a pele a disfarçá-lo de antigo e no fundo, a permitir-lhe a magia sem que nós perguntas, nós apenas sorrisos e admirações perante o homem orquestra, todo ele violoncelos, contrabaixos, flautas e trompetes, todo ele canções, melodias, poemas e cortesias, o Jorge, um príncipe encantado disfarçado de plebeu e a suprema arte de ser de verdade, viajando pelo tempo das grafonolas, girando a manivela que lhe dá vida e soltando aquele som imperfeito de onda-média, o Jorge, o mago da simplicidade arrancando palmas a um exército de incrédulos - quem será aquele homem? que disfarçava espanto com sorrisos enquanto ele anunciava mais uma - estou aqui para trabalhar, e trabalhar deve ser coisa a que cedo se habituou, de maneira que me deixei ficar, certo que a porta e a vassoura apenas para nos distrair e não só a porta e a vassoura, a camisa, o pullover, mas sobretudo a pele - rosa, a disfarçá-lo de antigo e no fundo, a permitir-lhe a magia sem que nós perguntas, nós apenas sorrisos e admirações, eu mais do que isso, eu de olhos bem fechados, imaginando o Jorge com cara de miúdo, fato polido e cabelo direito, de batuta na mão, mostrando à música por onde voar, dizendo-lhe o caminho certo para chegar até mim, que apesar de viver no mundo das coisas repetidas, não me esqueço nunca do meu onda-média por onde, volta e meia, sai uma música encantada, imperfeita, ainda do tempo das grafonolas.

05
Fev10

Dez infinitos minutos.

Marco

Havia no brilho daquele olhar o tamanho inteiro da eternidade, havia encantamento juvenil e quase aposto que, se dependesse dela, o sol não se poria nunca, ficaria ali parado, se calhar pendurado por uns cordéis às nuvens mais próximas e o tempo deixaria assim de passar para que ela sempre feliz daquele jeito, a ser ainda capaz de se surpreender tantos anos depois da primeira vez, tantos anos depois da pele de seda e dos cabelos brilhantes, ali parada, suspensa, dentro de um corpo feito de intermináveis socalcos, a enamorar-se pela simplicidade da vida, ao som do bolero de Ravel tocado num saxofone flutuante e comigo bem ao lado, completamente desatento das coisas óbvias, só a pensar no tamanho daquela eternidade, ali, na praia fluvial do jacaré em João Pessoa, Brasil, essa terra tão cheia de tudo onde apenas a palavra imensidão parece fazer sentido, eu desligado da realidade e a pensar numa frase ouvida dias antes  - viajar é acrescentar dias à vida, e sim, claro que é verdade, diria até mais, viajar é também acrescentar vida aos dias, são bolhas de tempo onde existimos de maneira diferente, é pertencer onde não se pertence, é ver como seríamos noutro sítio, noutra vida - e que grande viagem deve ter feito aquela pessoa, aquela senhora de olhos azuis esquecida pelo destino, olhando fixamente um sol que lhe escorregava por entre os dedos, derretendo-se nas águas daquele rio de pintura barata a óleo vendida numa dessas lojas de mil quadros iguais, a perfeição feita banalidade e talvez por isso eu distraído dela, convicto de que muitas mais pinturas como aquela durante a minha vida, mas receoso que um desencontro do acaso me leve a não mais mergulhar dentro daquele olhar de cristal onde por dez minutos, coube o tamanho inteiro da eternidade.

25
Nov09

O escrevedor de rua.

Marco

Giras as canções que nos fizeram sofrer, não o sofrimento em si, mas as canções, como bolas de sabão cheias de histórias que sem aviso a flutuar entre os olhos, trémulas, frágeis, as canções e já não as canções, os dias, inteiros, olhares, sorrisos, momentos e depois, nada, porque sempre um nada como ponto final parágrafo e por isso o sofrimento eternizado em três quatro minutos de canções que giras porque giras, mas giras também por isso, porque pedaços de nós e às tantas já o artista sem direitos de autor, o artista apenas um pobre coitado a cantar a nossa canção, a fingir-se de banda sonora da nossa vida, o artista num escaparate esquecido, metido lá bem atrás dos mais desinteressantes, cheio de pó dos anos passados, o artista expropriado, vivendo de acordes tocados para ninguém, esperando que alguma moeda a tropeçar e a estatelar-se ao comprido no chão, perto de si, o artista a tocar, eu a escrever fazendo-me dele, aqui sentado como se num túnel de metro, as pessoas à minha frente, passando com pressa para irem a sítio nenhum, gira esta imagem, o escrevedor de rua, dedilhando palavras não lidas, escrevendo frases que o vento faz voar até se perderem no céu como os balões das crianças distraídas - e que triste era vê-los pequenos e mais pequenos tão pequenos até que nuvens apenas, os textos flutuantes, as palavras, pergunto: quantas frases fez hoje a chuva cair no chão, quantas gloriosas composições afogadas em poças de água castanha, o artista esquecido, o escrevedor de rua, eu a remexer papéis e mais papéis, eu a arrumar lápis e canetas, eu a pegar no banco onde por horas fingi que fui feliz, eu já de pé, caminhando rua fora, lembrando todas canções giras que ainda não ouvi, olhando fundo dentro do meu chapéu, procurando talvez uma ou outra moeda com os joelhos ainda em ferida, caminhando, caminhando...

13
Nov09

Três anos.

Marco

Três anos depois nada mudou, nada ocupou os lugares que deixaste vazios porque na realidade nenhum desses lugares vazios, tu ainda invisível em todos eles, fazendo parte de cada detalhe, cada pormenor, tu escrito nas paredes, escondido nas gavetas, dobrado no roupeiro, tu em todo o lado, fazendo da casa aquilo que nunca deixará de ser, tu história, tu memória, tu presente e futuro, tu a viveres muito depois de há três anos, tu vivo hoje, aqui, agora, vejo-te entrar a porta, distingo-te o cabelo de prata e os olhos de mar profundo, encanta-me o teu sorriso castiço que afinal sorriso nenhum, gargalhada, alta, verdadeira, gargalhadas com significado, com vida lá dentro, coisas do arco da velha, as pedras que esculpiste, as viagens que fizeste, as coisas que criaste, tudo hoje ainda real, nada mudou, nada, o que lutaste, o que sofreste, o que acreditaste, nada mudou, vejo-te entrar na porta, sinto-te o cheiro, respiro-te, admiro-te e penso - os heróis afinal existem, penso ainda - quero ser como tu, quero saber o segredo da simplicidade, conhecer o truque da dignidade, quero poder dizer, daqui a uns anos, uma ocasião e depois com a tua graça, com o teu jeito em cativar, ter os olhos brilhantes dos netos a olharem-me e a sorrirem-me no fim, a sorrirem-me não, prefiro gargalhadas, daquelas altas, verdadeiras que só tu sabes fazer e digo sabes porque três anos depois nada mudou ou melhor, mudámos nós com a ideia de seres invisível mas apenas isso, invisível, um super poder que nunca me ensinaste talvez por achares que ainda me falta viver e escrever muita história até um dia ser, finalmente, herói. Como tu.

06
Nov09

Não lhes sei o nome.

Marco

Não lhes sei o nome mas sou capaz de arriscar alguns e por isso penso em Joana quando lembro aquele sorriso prisioneiro de um corpo desobediente e pergunto-me logo como viver num corpo desobediente sem fazer ideia de qualquer resposta minimamente decente e ainda assim a Joana incompreensivelmente feliz com a minha presença, tocando-me num desafio para o recreio, eu sem jeito, sem saber o que fazer, como reagir, não incomodado, esmagado, e logo a Joana corredor fora em direcção aos amigos que dentro de casa porque na rua aquela chuva pálida, sem vontade e por isso nada de pátio, eu de caderno na mão, fingindo escrever aquilo que não caberia em resmas inteiras de papel em branco, eu já a olhar o Jaime numa luta desigual, injusta, cruel, contra um iogurte natural, também ele prisioneiro de um corpo desobediente, miúdo, dez anos no máximo, um iogurte natural, lá fora a chuva pálida e eu a caminho da sala seguinte com uma palavra apenas na minha cabeça - dignidade, mais nada, os passos a desaparecerem bem por baixo dos pés, eu a escrever tremendos nadas ainda siderado pelo olhar fixo do Ricardo, tão directo, tão meigo, tão sereno, zero palavras apenas olhos - dignidade a repetir-se vezes sem conta, eu que à porta todo dores de cabeça, sinusites e outras maleitas dessa família, eu que só estava ali por causa de um simples anúncio, agora já na secção dos muito dependentes a imaginar como se contam os minutos daquela maneira, sem mais nada poder fazer ou dizer, apenas existir e estar ali, o Rui... um puto caramba, oito nove anos não mais, lá estou eu outra vez a escrever tremendos nadas, podia aqui ficar a esculpir as mais belas frases e por muito que me esforçasse, jamais conseguiria retratar a beleza daquelas pessoas todas, jamais faria jus à sua dignidade e talvez por isso, vou ficar-me por aqui, fechar um pouco os olhos e lá bem no fundo, desejar que aqueles corpos ganhem juízo de uma vez por todas e passem a ser mais obedientes aos seus donos que tanto merecem.

10
Set09

Música para os ouvidos.

Marco

Existe ao final de cada tarde uma hora misteriosa, secreta, em que o vento decide aparecer para fazer as árvores cantar à desgarrada qual fado vadio
- Rhandy Roads era mesmo um poeta da guitarra
e nesse preciso momento, é sabido que o Zeca estará provavelmente a dormitar o sono que os javalis lhe roubaram à noite e estará provavelmente já com saudades do seu Comandante que nisto das hierarquias os bichos não brincam, contando cada minuto até poder adorá-lo de novo, sempre altivo, distante e próximo, frio e caloroso, o Comandante outrora cruzando oceanos, tratando ventos e marés por tu, chamando os nomes certos a cada peixe que de visita ao passar do navio, atando e desatando nós e nós a vê-lo, a seguir-lhe os passos até ao fim do mundo, lá, onde os Romanos decidiram um dia rasgar caminhos
- Agora estou de Beatles, Let It Be
para que nós, de pedra em pedra a contemplar tamanho silêncio - que bem soa o silêncio, as rãs a medo saltando à deriva, fugindo não percebo porquê, o cheiro a final de tarde, só nós e o fim do mundo
- Curioso o último dos Beatles ser o meu primeiro
só nós e a certeza de que as árvores já cheias de preparos para a Diplomata, sentada sob o telheiro a perceber-lhes a tremideira, longe do tempo, perto das estrelas dançarinas, a Diplomata e a sua serenidade, a sua aceitação, o seu conhecimento, sabendo já de gingeira que àquela hora as ovelhas vão percorrer o carreiro rumo à sombra fresca dos sobreiros para mais uma noite de lua acesa, a noite a chegar, é tempo de seguir o Comandante estrada acima, ele a explicar-me os segredos da terra e eu outra vez puto charila, por minha vontade voltava já amanhã, ia direito ao rio para lhe mandar pedras achatadas na esperança de as fazer saltitar mais do que três vezes - desculpa avô Tóino essa nunca consegui aprender, e depois quando o sol se pusesse, pediria desculpa às pessoas já sentadas e passaria em dificuldades até ao meu lugar bem no centro da plateia, mesmo a tempo de ouvir a vento mandar as árvores cantar.

24
Ago09

Pernas para que vos quero.

Marco

É Verão e as palavras de férias, sim de férias, eu a chamá-las na repetição de um eco vazio e elas se calhar estendidas ao sol, metendo creme em pernas, cedilhas e acentos, elas cheias de fornicoques, todas aperaltadas em jantares de esplanada bebendo mojitos de morango, comendo ostras com limão, esquecidas de mim, coitado, aqui à luta com uma ou outra que aqui talvez por medo de voar ou fobia às filas de trânsito, eu reduzido a escassas frases de circunstância que em circunstância alguma um texto de jeito, despojos de linhas incompletas, ou então, de tão feias, metidas em casa à frente da televisão a dormir enquanto os ciclistas pingam mais umas gotas de suor, os ciclistas parecem-se a mim, pedalam pedalam como se o texto estivesse sempre lá no alto da montanha, transpiram que se fartam por tão pouca coisa, mas transpiram e assim eu, a dar ao pedal, quase sem palavras disponíveis - a esta hora as sacanas a mergulhar em mares tropicais, olha a palavra inveja por aqui, lá está, ninguém a leva a lado nenhum e por isso metida no meio desta salada, eu que nem sou muito saladeiro, faz-me confusão a alface e o tomate quentes de tocarem na comida e mais confusão ainda disputá-los com o resto da mesa quando metidos em saladeiras, ai esta timidez que me consome as vitaminas todas e o pedal cada vez mais pesado, chiça a montanha é alta que se farta, malditas palavras a banhos, apetece-me chamar-lhes nomes mas as asneiras todas de férias, tenho para aqui apenas a inveja e pouco mais, preciso de uns dias, uma semana talvez chegue, vou procurar o passaporte, vou ao encontro delas, palavras peçam-me aí umas travessas de ostras com MUITO limão, esperem por mim, estou só à procura do creme protector que isto de pedalar além de muito trabalho, dá uns escaldões que só eu e os ciclistas é que sabemos.

07
Jul09

Barcelona.

Marco

Duas semanas já passadas, os dias todos contados, um por um, e eu com a certeza absoluta de ainda não ter regressado, eu aqui sentado a caminho do Másia, dentro da minha t-shirt dos Dinosaur Jr, a olhar as ruas num misto de fascínio e encantamento, a  perceber o tamanho do mundo, a admirar-me com rostos, com expressões, com rotinas, a descobrir a grandeza dos detalhes, pormenores, delicadezas, a conversar com a Chila e a entender os porquês de cada recanto, a ficar detentor das respostas em vez das perguntas, eu a entrar no meu carro e a pensar no melhor caminho para a Carrer Entença, a ter a sensação de me ir perder no meio daqueles cruzamentos siameses, a meter a chave à porta perguntando-me se a Sofi ou a Riti em casa para dois dedos de conversa que depois eram sempre noites inteiras, as noites, os dias, dias todos contados, um por um, e eu com a certeza absoluta de ainda não ter regressado, eu de frigorífico aberto a olhar a salada já feita que irei meter dentro dos bocadilhos para mim e para o Camacho, Sant Pol de Mar espera-nos, esse sítio mágico onde a água é feita de finos cristais que juntos se rebentam contra os nossos pés, onde é crime grave o tempo passar tão depressa e por isso, logo logo a pessoa já no comboio, eu agora no comboio, colado à janela, impressionado com a velocidade das coisas, a pensar onde ir logo à noite, Rambla abaixo, Rambla acima, fintando as Estrellas cadentes que se me cruzam ao caminho, incessantes, sonhando acordado com um regresso que mais dia menos dia, vai ter mesmo de acontecer.